Banquete da Palavra · 11 de janeiro
Quer Subir Connosco do Fundo de Um Abismo
Baptismo do Senhor
Aos lugares bíblicos está ligado muitas vezes um significado teológico. O mar, o monte, o deserto, a Galileia das gentes, a Samaria, o rio Jordão, as terras para além do lago de Genesaré são muito mais do que simples indicações geográficas (muitas vezes nem sequer muito precisas).
Lucas não especifica o lugar onde ocorreu o baptismo de Jesus, mas refere-o João: «Isto passou-se em Betânia, do outro lado do rio Jordão, onde João estava a baptizar» (Jo 1, 28). A tradição localizou, justamente, o episódio em Betabara, o vau onde também o povo de Israel, guiado por Josué, atravessou o rio e entrou na Terra Prometida.
No gesto de Jesus estão assim presentes referências explícitas à passagem da escravidão à liberdade e ao início de um novo êxodo em direcção à verdadeira Terra Prometida.
Betabara tem ainda um outro apelo, menos evidente, mas também significativo: os geólogos garantem que este é o ponto mais baixo da terra (400 m abaixo do nível do mar).
A escolha de iniciar ali a vida pública não pode ser casual. Jesus, vindo das alturas do Céu para libertar o homem, desceu até ao abismo mais profundo para mostrar que quer a salvação de cada homem, mesmo do mais desprezado, mesmo daquele a quem a culpa e o pecado arrastaram para um abismo do qual ninguém imagina que se possa subir. Deus não esquece e não abandona nenhum dos seus filhos.
Apareceu a graça de Deus, portadora de salvação para todos os homens.
Primeira leitura
Na segunda parte do livro de Isaías, entra em cena uma personagem misteriosa a quem o autor chama: o «servo do Senhor». A sua história é contada em quatro trechos (Is 42, 1-7; 49, 1-6; 50, 4-
-9; 52, 13-53,12).
Quem é ela? Trata-se de um indivíduo concreto ou de uma figura simbólica que representa todo o povo de Israel? Os biblistas não conseguiram ainda dar uma resposta certa e nem sequer é muito importante tê-la. O que nos interessa é que neste servo do Senhor os primeiros cristãos reconheceram imediatamente a imagem de Jesus (Act 8, 30-35). Como é que se deu esta identificação?
Tudo tem início naquela dramática sexta-feira, dia 7 de Abril do ano 30 d.C., dia em que Jesus é executado. Os discípulos, desorientados, perguntam-se por que motivo a vida de um homem bom e justo se concluiu com um malogro. Procuram nas escrituras uma solução para o enigma e, no livro de Isaías, encontram a história deste servo que, após um processo iníquo, é aniquilado pelas mesmas pessoas a quem ele queria salvar. Entendem: Deus não salva concedendo a vitória, o sucesso, o domínio, a humilhação dos inimigos, mas mediante a derrota, o dom da vida. O que o profeta tinha dito em relação ao «servo do Senhor» realizou-se plenamente em Jesus de Nazaré.
A leitura de hoje conta-nos o início da história deste servo.
Antes de mais é descrita a sua eleição (v. 1).
Esta palavra tem para nós ressonâncias nem sempre positivas: evoca a preferência para com alguém e a exclusão dos outros. Não nos agrada ouvir falar de povo «eleito», de estirpe «eleita» porque estas expressões despertam as recordações dramáticas da loucura provocada pela ilusão de pertencer a uma «raça eleita».
A eleição de Deus não tem nada a ver com o exclusivismo, o particularismo, o separatismo. Quando Deus escolhe uma pessoa ou um povo, fá-lo apenas para lhe confiar uma missão (sempre difícil, gravosa, pouco gratificante), para lhe pedir um serviço a favor dos outros.
É fácil, infelizmente, para quem foi escolhido pelo Senhor, interpretar a sua eleição de acordo com categorias e critérios humanos e alegar direitos a honras e privilégios. A personagem de que nos fala a leitura é, desde o início, identificada não como senhor, mas como «servo», encarregado de cumprir uma tarefa empenhativa. Quem lhe dará a força?
O homem é «carne», ou seja, está revestido de fraqueza. Quando o Senhor pede a alguém para desempenhar uma tarefa, dá-lhe também a capacidade para a realizar. Ao seu «servo», o Senhor comunica como sustento o seu Espírito, a sua força irresistível.
Fala-se logo também da missão confiada a este «servo eleito»: ele está destinado a levar o direito às nações (v. 1), a fazer com que triunfe no mundo «a justiça», «a justiça de Deus» que consiste na sua benevolência, na sua salvação.
Nos versículos seguintes (vv. 2-5), é descrita a forma como este servo actuará na sua missão. Irá comportar-se de maneira inesperada: não se irá impor com a força, com a pressão jurídica, com ameaças de sanções contra quem se opõe às suas disposições. Não gritará, não levantará a voz como fazem os reis quando proclamam os seus programas ou se gabam das suas façanhas nas praças. Não será intolerante e intransigente para com os débeis. Não condenará ninguém. Recuperará quem errou em vez de o aniquilar e destruir, reconstruirá com paciência e respeito o que se está arruinar. Para ele não haverá casos perdidos, situações irrecuperáveis.
Será também tentado pelo desencorajamento diante de uma obra tão árdua, mas permanecerá firme e decidido levá-la por diante, e não recuará perante nenhum obstáculo.
Servindo-se de imagens, a última parte da leitura (vv. 6-7) desenvolve a missão do servo: ele será luz para as nações, abrirá os olhos aos cegos, libertará os prisioneiros e os escravos que cami-nham nas trevas.
O relato sobre o Servo do Senhor foi composto por um autor anónimo e depois colocado no livro de Isaías cerca de 500 anos antes do nascimento de Jesus. Não sabemos a quem se referia concretamente o profeta; o que é certo é que Jesus realizou tudo aquilo que está escrito no livro de Isaías: Ele foi o Servo fiel a Deus. Quase todos os versículos desta leitura são, de facto, referidos nos Evangelhos e aplicados a Jesus (cf. Mt 3, 17; 12, 18-21; 17, 5).
Segunda leitura
A leitura relata uma parte do discurso feito por Pedro na casa de Cornélio, em Cesareia.
Na Igreja primitiva um problema muito debatido dividia as comunidades: podia-se ou não conceder o Baptismo aos pagãos? Pedro, infelizmente, era um pouco avesso, condicionado como estava pelo preconceito, profundamente radicado em Israel, de que os outros povos fossem impuros.
Um dia, enquanto se encontrava em oração em Jafa, o Senhor revelou-lhe que nenhuma criatura de Deus é impura e profana. Diante dele, todos são igualmente puros e privilegiados. Todos são indistintamente chamados à salvação, porque Ele é o Senhor de todos (Rm 10, 12).
A expressão Deus não faz acepção de pessoas – utilizada neste trecho – é retomada outras vezes no Novo Testamento (Rm 2, 11; Gl 2, 6; 1Pe 1, 17) para denunciar a perigosa tentação de projectar em Deus as nossas discriminações e acautelar da ilusão de que o Senhor trate de modo diferente as pessoas, com base na confissão religiosa a que pertencem.
O discurso de Pedro continua apresentando uma breve síntese da vida de Jesus (vv. 37-38). Com a expressão «Jesus de Nazaré que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo Demónio» resume a sua missão. Ele empenhou-se contra todas as formas de mal, contra tudo aquilo que impede a vida do homem.
A obra a realizar foi difícil e empenhativa, mas Jesus conseguiu concluí-la porque estava cheio do Espírito do Senhor e porque Deus estava com Ele.
É indicado também o tempo e o lugar em que teve início a manifestação da salvação: tudo teve início na Galileia quando João começou a baptizar no Jordão.
Com estas palavras, Pedro define de novo o período da vida de Jesus ao qual se deve referir a fé dos crentes: a vida pública, «a partir do baptismo de João até ao dia em que nos foi arrebatado para o Alto» (Act 1, 22).
Evangelho
No tempo de Jesus, muitas seitas religiosas praticavam o baptismo. O rito tinha muitos significados, mas um tinha particular importância: com a imersão pretendia-se indicar a morte de um indivíduo (a sua vida passada era apagada, como se fosse arrastada pela corrente) e com a emersão dava-se o nascimento de um homem novo ao qual, naturalmente, era dado um novo nome.
João fazia esta cerimónia para acolher todos aqueles que queriam fazer parte dos seus discípulos. Baptizava quem tomava a decisão de mudar de vida para se preparar para a vinda do messias, anunciada como iminente. A primeira condição para receber o baptismo era reconhecer-se pecador; era por este motivo que os fariseus e os saduceus, que se consideravam justos e sem pecado, achavam não precisar dele (Lc 7, 30).
Se era este o significado do baptismo de João, não se compreende por que razão Jesus o recebeu; Ele não devia mudar de vida e o seu gesto podia dar a ideia que João lhe fosse superior. Para esclarecer este ponto difícil, muito sentido entre os primeiros cristãos, Mateus introduz no episódio o diálogo entre o Baptista – que se recusa a baptizar alguém superior a ele – e Jesus, que insiste para que se cumpra «toda a justiça». João tem que se adequar e colaborar na realização do projecto de salvação de Deus (é esta «a justiça»), mesmo que para ele apresente aspectos misteriosos e incompreensíveis (vv. 14-15).
Até mesmo uma pessoa espiritualmente madura, como o Baptista, encontra dificuldade em aceitar o messias de Deus: fica surpreendido quando vê o santo, o justo, lado a lado com aqueles pecadores que, de acordo com a lógica dos homens, deviam ser aniquilados.
É a nova e desconcertante «justiça» de Deus. É a «justiça» daquele que «quer que todos os homens sejam salvos» (1Tm 2, 4). O autor da carta aos Hebreus irá evocar esta verdade consoladora em termos comoventes: Cristo não se envergonha de chamar «irmãos» aos homens pecadores (Hb 2, 11).
É um convite dirigido às comunidades cristãs de hoje, para que revejam as atitudes das quais transparece a arrogância, a presunção, a complacência pela própria justiça, e para que corrijam uma linguagem que pode dar a ideia de se querer julgar, condenar, marginalizar quem errou ou erra.
Depois desta introdução original, também Mateus, como Marcos e Lucas, descreve a cena sucessiva com três imagens: o céu que se abre, a pomba, a voz do céu. Não pretende lembrar factos prodigiosos aos quais assistiu pessoalmente. Utiliza imagens bem conhecidas dos seus leitores, e o seu significado não é difícil de colher também para nós, hoje.
Comecemos pela abertura do céu.
Não se trata de uma informação meteorológica. Não é que, por entre as nuvens densas e sombrias, se tivesse de repente filtrado um luminoso raio de sol. Se assim fosse, Mateus teria feito referência a um detalhe banal e sem interesse para a nossa fé. Ele alude, de forma explícita, a um texto do Antigo Testamento, um trecho do profeta Isaías que devemos necessariamente evocar.
Nos últimos séculos antes de Cristo, o povo de Israel teve a sensação de que o céu se fechara. Indignado pelos pecados e pela infidelidade do seu povo, Deus retirara-se para o seu mundo, deixara de enviar profetas e parecia ter quebrado o diálogo com o homem. Os israelitas piedosos questionavam-se: quando terá fim este silêncio que tanto nos angustia? O Senhor não voltará a falar-
-nos, não mais nos mostrará o seu rosto sereno, como nos tempos antigos? Invocavam-no assim: «Tu, Senhor, és o nosso pai. Nós somos a argila e Tu és o oleiro. Todos nós fomos modelados pelas tuas mãos. Ó Senhor, não te irrites em demasia, nem te lembres para sempre da nossa iniquidade... Quem dera que rasgasses os céus e descesses» (Is 64, 7-8; 63, 19).
Afirmando que, com o início da vida publica de Jesus, o céu abriu-se, Mateus dá aos seus leitores uma notícia surpreendente: Deus ouviu a súplica do seu povo, abriu o céu e nunca mais o há-
-de fechar. Acabou para sempre a inimizade entre o céu e a terra. A porta da casa do Pai ficará eternamente aberta, de par em par, para acolher todo o filho que queira entrar, sem excluir nenhum.
A segunda imagem é a da pomba.
Mateus não diz que desceu do céu uma pomba, também este seria um detalhe banal e supérfluo, mas que o Espírito Santo desceu do céu «sobre Ele, como uma pomba».
O Baptista recorda certamente que do céu não desceu apenas o maná, mas também a água destruidora do dilúvio (Gn 7, 12), o fogo e o enxofre que incendiaram Sodoma e Gomorra (Gn 19, 24). Provavelmente espera a vinda do Espírito como um fogo que devorará os maus. Pelo contrário, sobre Jesus o Espírito desce como uma pomba: tudo é ternura, afecto, bondade. Movido pelo Espírito, Jesus aproximar-se-á sempre dos pecadores com a doçura e a amabilidade da pomba.
A pomba era também o símbolo do apego ao próprio ninho. Se o evangelista pensa também neste aspecto, então quer dizer-nos que o Espírito procura Jesus como a pomba procura o seu ninho. Jesus é o templo onde o Espírito encontra a sua morada estável.
A terceira imagem: a voz do céu.
Esta era uma imagem usada com frequência pelos rabis quando queriam atribuir a Deus uma afirmação. No nosso relato tem por finalidade definir, em nome de Deus, a identidade de Jesus.
O trecho foi composto depois dos acontecimentos da Páscoa, para responder às questões suscitadas nos discípulos pela morte ignominiosa do Mestre. Aos seus olhos, Ele aparecia como um falhado, derrotado, alguém que tinha sido rejeitado e abandonado pelo Senhor. Os seus inimigos, guardiões e garantes da pureza da fé de Israel, tinham-no condenado como blasfemo. A questão inquietante era: terá Deus partilhado esta sentença?
Aos cristãos das suas comunidades, Mateus refere o juízo do Senhor com uma frase que alude a três textos do Antigo Testamento.
– Tu és o meu filho. Evoca o Salmo 2, 7. Na cultura semítica o termo filho não indicava apenas a geração biológica, implicava também a afirmação de uma semelhança. Apresentando Jesus como seu filho, Deus garante reconhecer-se nele, nas suas palavras, nas suas obras e, acima de tudo, no seu gesto supremo de amor: o dom da vida. Quem quiser conhecer o Pai não tem senão que contemplar este filho.
– Muito amado. A referência é ao relato da prova a que foi submetido Abraão: tinha-lhe sido pedido que oferecesse o filho Isaac, o único, o muito amado (Gn 22, 2.12.16). Aplicando a Jesus este título, Deus indica que não deve ser considerado um rei ou um profeta como os outros; Ele é, como Isaac, o único, o amado.
– No qual pus toda a minha complacência. Na primeira leitura de hoje (Is 42, 1), lemos «enlevo da minha alma». Deus declara que Jesus é o servo de quem falou o profeta, é Ele o enviado a «instaurar o direito e a justiça» no mundo. Para cumprir esta missão dará a vida.
A voz do céu altera o juízo pronunciado pelos homens e desmente as expectativas messiânicas do povo de Israel que não podia conceber um messias humilhado, derrotado, justiçado. Quando, na casa do sumo sacerdote, Pedro jurou não conhecer aquele homem, no fundo dizia a verdade, não podia reconhecer nele o messias: não correspondia em nada ao salvador esperado. O modo como Deus cumpriu as suas promessas constituiu para todos, também para o Baptista, uma surpresa.
Comentando o Evangelho da festa da Sagrada Família, dissemos que muitas vezes Mateus traça um paralelismo entre aspectos de Jesus e de Moisés. No trecho de hoje encontramos de novo esta situação: Moisés recebeu o espírito de Deus quando, juntamente com todo o povo, saiu das águas do Mar Vermelho. Aquela força divina permitiu-lhe guiar os Israelitas através do deserto, até à Terra Prometida. Também Jesus recebeu o Espírito depois de ter saído da água; e então, juntamente com os homens escravos do mal, empreendeu o caminho em direcção à liberdade.
Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.