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5 Quinta-feira, 5 de novembro Novembro de 2026 Quinta-feira da semana XXXI

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Banquete da Palavra · 28 de dezembro

Uma Família Que Acredita nos Sonhos de Deus

Domingo dentro da Oitava do Natal

«Como o que procura agarrar uma sombra ou perseguir o vento... os augúrios e os sonhos são coisas vãs» (Eclo 34, 2.5). Podem ser também aterrorizadores, os sonhos dos homens. Estendido no seu leito, Nabucodonosor fica perturbado por imagens e visões nocturnas, e, para uma interpretação delas, deve recorrer ao profeta Daniel.

São diferentes os sonhos de Deus, e Mateus, único entre os evangelistas, introdu-los nas histórias da infância de Jesus: em sonhos José recebe o anúncio do anjo (Mt 1, 20), em sonhos os magos são avisados para não voltarem a Herodes (Mt 2, 12), em sonhos José é advertido por mais três vezes (Mt 2, 13.19.22).

Estes sonhos são constituídos apenas por palavras, palavras do Senhor, que pedem para ser acolhidas. São um artifício literário, um modo de apresentar a revelação da vontade de Deus aos dois esposos e de indicar a completa disponibilidade deles e segui-la, prontamente, sem opor resistência.

Os problemas que a sagrada família teve que enfrentar não foram poucos nem simples.

Ao contrário do que acontece nas nossas famílias e nas nossas comunidades, onde os momentos de crise, as dificuldades e as desventuras constituem, por vezes, motivo de afastamento e de desagregação, na família de Maria e José os obstáculos tornaram-se um estímulo ao diálogo, à união, no serviço ao mais fraco e mais necessitado de ajuda, a manter a mente e o coração dirigidos para Deus. Os dois esposos moveram-se sempre juntos, estiveram sempre em sintonia, encontraram-se sempre de acordo nas escolhas a fazer.

O segredo da sua união: renunciaram aos seus sonhos e fizeram seu o sonho de Deus.

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
Escutando a tua palavra, Senhor, nós descobrimos os teus sonhos para a nossa família.

Primeira leitura

O livro de Ben Sira é um livro do Antigo Testamento que contém muitos conselhos, bons e úteis, para as mais variadas situações da vida. Ensina como comportar-se com os amigos, com os hóspedes, com as mulheres, como administrar o dinheiro, que relacionamento manter com os chefes, com os servos, com os discípulos... Uma boa parte do livro é dedicada à vida familiar, aos deveres do marido e da mulher, às obrigações dos filhos para com os pais e vice-versa. Pode-se com utilidade ler algum versículo saboroso, por exemplo em Eclo 30, 1-13 e 42, 9-14, mesmo que alguns ensinamentos que aí se encontrem já não possam ser aplicados à letra: certos métodos educativos estão sem dúvida obsoletos.

O autor – um tal Ben Sira, de onde vem o nome do livro – é um sapiente rabi que viveu no ano de 200 a.C., estudioso da Bíblia, da qual assimilou a mensagem e da qual retira conselhos úteis para todos.

No tempo de Jesus, o livro de Ben Sira – mesmo não fazendo parte dos livros santos de Israel – era usado pelos mestres para educar os jovens. Também os cristãos o apreciaram sempre, de tal modo que, depois dos Salmos, foi o livro mais lido de todo o Antigo Testamento. O próprio nome com que era conhecido no passado, Eclesiástico, significa «livro para ser lido nas Igrejas».

O trecho da leitura de hoje fala dos deveres dos filhos para com os pais. Vamos introduzi-lo chamando a atenção para o primei-
ro versículo (que não consta da leitura) porque nos permite colher a identidade do autor, um pai de família preocupado em ensinar aos próprios filhos o caminho da vida: «Ouvi, filhos, os conselhos do vosso pai, procedei em conformidade, para serdes salvos» (Eclo 3, 1).

Salvar na Bíblia significa «colocar em lugar amplo, espaçoso». É o contrário de tornar escravo, limitar. Instruído pela experiência acumulada ao longo dos anos, Ben Sira sabe que os jovens correm o perigo de se fecharem nos seus projectos, de pensarem apenas em si mesmos. Assim, por uma aspiração mal entendida à completa independência, podem cair na limitação mais enganadora, a do egoísmo. Há um modo para os salvar da mesquinhez de coração: educá-los para o reconhecimento, torná-los atentos às necessidades dos outros, sobretudo às necessidades daqueles de quem receberam a vida. «Honra o teu pai de todo o coração, não esqueças os gemidos da tua mãe. Lembra-te de que foram eles que te geraram» (Eclo 7, 27-28).

 

Na primeira parte da leitura (vv. 2-6), Ben Sira resume com o termo honrar o comportamento que os filhos devem ter para com os pais. Chega a repetir cinco vezes este verbo e aplica-o indistintamente quer ao pai quer à mãe. Num mundo onde a mulher era ainda discriminada e considerada inferior ao homem, esta é uma grande novidade. Não se trata de uma novidade absoluta porque Ben Sira herdou-a dos livros santos do seu povo. De facto, o primeiro mandamento que aparece depois dos que dizem respeito a Deus é: «Honra teu pai e tua mãe» (Ex 20, 12; Dt 5, 16).

O primeiro significado do verbo honra, o mais óbvio e imediato, é o de criar honra. Aos filhos é pedido que conduzam uma vida boa, íntegra, correcta, de modo que os pais se possam sentir orgulhosos deles.

O segundo dever dos filhos expresso pelo verbo honrar é o de os assistir economicamente quando se encontram em necessidade. No tempo de Ben Sira os velhos não recebiam a reforma e, depois de uma vida de trabalho e sacrifícios, eram por vezes obrigados a viver com necessidades humilhantes. Nenhum filho deveria suportar a situação de ver os pais em tais condições.

Há por fim um terceiro significado do verbo honrar. Na língua hebraica quer dizer: ter peso. Os pais devem ser honrados continuando a dar-lhes o peso que merecem. É uma experiência dramática para as pessoas idosas darem-se conta de que as suas palavras, os seus conselhos, as suas recomendações, os seus gestos de afecto não têm peso nenhum, já não contam para nada.

 

A Deus agrada muito o amor dos filhos para com os pais. Isto vê-se claramente nas promessas de bênção feitas a quem cuida do pai e da mãe. Ben Sira enumera cinco:

O amor para com os pais – diz ele – expia os pecados (vv. 3.14). Isto não significa que Deus reduz o débito que se tem para com ele na proporção dos serviços prestados aos pais (seria pouco). Prestar cuidados aos pais, dedicar-lhe afecto e carinho é uma oportunidade que não se deve deixar escapar: amadurece, ajuda a descobrir os verdadeiros valores da vida, desapega de tudo aquilo que é passageiro, afasta do pecado.

O amor aos pais acumula tesouros diante de Deus (v. 4). Diante dos homens leva talvez a perder muitas oportunidades para nos impormos, termos sucesso na vida, acumularmos bens neste mundo. Mas a avaliação que importa considerar não é a dos homens, mas a que o Senhor faz no final da vida.

Quem honra os pais será por sua vez honrado pelos filhos (v. 5). Sábias palavras! Os filhos – sabemo-lo – aprendem mais com os olhos do que com as orelhas. Ele vêem (e não esquecem) o comportamento dos seus pais para com os avós. As atenções para com os filhos podem ser também manifestações de amor possessivo, mas aquelas para com os avós (sobretudo quando necessitam de tudo) nunca podem ser mal entendidas, são uma incomparável lição de vida.

A oração de quem honra os pais será atendida (v. 5). O amor para com os pais produz uma sensibilidade interior que aproxima de Deus. Quando falta este amor, a relação com o Senhor torna-se uma formalidade, uma prática religiosa fria e sem coração que a Deus não interessa.

Por fim, quem honra os pais terá uma longa vida (v. 6). Só muito tarde (no século II a.C.) em Israel se começou a acreditar numa vida para além da morte, antes pensava-se apenas nesta vida terrena, pelo que o maior bem era morrer como Abraão «feliz, numa idade avançada» (Gn 25, 8). Não podia faltar a promessa desta bênção para quem cuida dos próprios pais (Dt 5, 16; Ex 20, 12).

 

Na segunda parte da leitura (vv. 12-14) é sugerido o comportamento a ter para com os pais idosos. Pode acontecer que enfraqueçam não só fisicamente, mas também mentalmente. Cuidar de quem perdeu a memória, de quem repete sempre as mesmas frases aborrecidas, e por vezes ofensivas, é muito difícil, e, no entanto, é esse o momento de manifestar plenamente o próprio afecto.

 

A leitura fala só dos deveres dos filhos e é compreensível... Ben Sira é um velho. Com muita razão os filhos gostariam que fosse dirigida uma palavra também aos pais porque – como sabemos – nem sempre são exemplares. Devem também ser «honrados»?

O amor verdadeiro é sempre gratuito e incondicional. Não se ama uma pessoa porque é boa, mas faz-se com que se torne boa amando-a. E se isto é válido para todos, é-o, sobretudo, para os pais. Amá-los não significa encorajar-lhes os defeitos e os limites, satisfazer-lhes os caprichos, mas compreendê-los e ajudá-los. Não se «honram» os pais se não se procura fazer com que superem certos comportamentos grosseiros, certas atitudes antipáticas, certos modos de falar pouco corteses.

E quando se criam situações irremediáveis... então não resta senão a paciência.

Segunda leitura

A roupa é muito importante: diferencia-nos dos animais que andam nus e é o prolongamento do nosso corpo. Revela os nossos gostos e os nossos sentimentos, mostra se estamos alegres ou estamos de luto, se é um dia de feriado ou de trabalho. Não pode ser imposta, porque cada pessoa tem o direito de escolher a imagem que deseja dar de si própria.

Na linguagem bíblica, a roupa é o símbolo das obras que manifestam externamente as disposições interiores, as escolhas do coração.

O cristão, que no Baptismo ressuscitou com Cristo para uma vida nova, não pode continuar a vestir a roupa velha. «Deveis, no que toca à conduta de outrora, despir-vos do homem velho, corrompido por desejos enganadores, e renovar-vos pela transformação do Espírito que anima a vossa mente» (Ef 4, 22-24) – recomenda Paulo que utiliza noutras ocasiões a mesma imagem: «revesti-vos de Jesus Cristo» (Rm 13, 14), «revestiste-vos de Cristo» (Gl 3, 27). Retoma-a também na carta aos Colossenses: «revestiste-vos do homem novo» (Cl 3,10) e, nos versículos seguintes, desenvolve-a. É a leitura de hoje.

 

Na primeira parte (vv. 12-15), Paulo enumera as características da roupa do cristão: «Revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente.» Vamos contar os tecidos de que é feita: são sete e todos de grande valor, praticamente impossíveis de encontrar.

Não está completa ainda a descrição da roupa do cristão. É necessário também cingir-se com um vínculo que dê um toque de elegância a tudo o resto: a caridade. Esta não se reduz a um vago sentimento, mas manifesta-se por uma atitude constante de serviço ao irmão, na disponibilidade para sacrificar-se por ele.

Esta roupa não está reservada apenas a alguns. Todos os cristãos a devem vestir, é igual para todos, homens e mulheres, sacerdotes, freiras e leigos; deve ser usada noite e dia, não é possível despi-la.

 

Na parte central da leitura (vv. 16-17) estão indicados alguns meios para manter ou construir a harmonia entre os membros da família.

«Habite em vós com abundância a palavra de Cristo» (v. 16). É o convite a meditar juntos o Evangelho. A família que, com regularidade, consegue encontrar um momento para dedicar à leitura de uma página do Evangelho, constrói bases sólidas para se encontrar sempre de acordo e fazer opções iluminadas.

«Para vos instruirdes e aconselhares uns aos outros» (v. 16). Quando há acordo acerca dos valores fundamentais – acordo criado pela escolha da palavra de Cristo como ponto de referência – é possível instaurar um diálogo construtivo. Os conselhos e as observações não são interpretados como intromissões indevidas, como ingerências naquilo que não nos diz respeito, mas como manifestações de carinho afectuoso para com a pessoa que se ama.

«E com salmos, hinos e cânticos inspirados, cantai de todo o coração.» Quantos pormenores, quantos estratagemas pomos em acção para fazer com que nas nossas famílias reine a confiança recíproca, o acordo, a concórdia. Paulo sugere o seu: a oração em família.

 

Na terceira parte da leitura (vv. 18-21), Paulo aplica a lei do amor aos relacionamentos entre os membros da família cristã. Diz antes de mais às mulheres que devem ser submissas para com os seus maridos, e depois recomenda a estes que amem as suas mulheres.

Normalmente às mulheres não agrada nada esta linguagem de Paulo, e perguntam por que motivo ele não diz também aos maridos: «Sede submissos às vossas mulheres.» Estes teriam muita necessidade deste conselho. Fazem muitas vezes aquilo que querem e ai de quem lhes pedir uma explicação.

É preciso reconhecer que as mulheres têm boas razões para se lamentarem, porém é preciso entender aquilo que Paulo pretende realmente afirmar. É verdade que não usa para os maridos a palavra servir, mas utiliza outra que significa exactamente a mesma coisa: amar. Para um cristão, «amar» não significa talvez «tornar-
-se servo»? O Mestre deu aos seus discípulos, a homens e mulheres, sem distinção, a norma que deve orientar os comportamentos: «Quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo. Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir» (Mt 20, 27-28).

No versículo conclusivo, Paulo recomenda aos filhos a obediência, mas, ao contrário de Ben Sira, tem uma palavra também para os pais: estejam atentos para não caírem no autoritarismo que não educa, mas cria rigidez, desconfiança, exaspera os filhos.

Evangelho

13Depois de os Magos partirem, o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egipto e fica lá até que eu te diga, pois Herodes vai procurar o Menino para O matar». 14José levantou-se de noite, tomou o Menino e sua Mãe e partiu para o Egipto 15e ficou lá até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor anunciara pelo profeta: «Do Egipto chamei o meu filho». 19Quando Herodes morreu, o Anjo apareceu em sonhos a José no Egipto 20e disse-lhe: «Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e vai para a terra de Israel, pois aqueles que atentavam contra a vida do Menino já morreram». 21José levantou-se, tomou o Menino e sua Mãe, e voltou para a terra de Israel. 22Mas, quando ouviu dizer que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai, Herodes, teve receio de ir para lá. E, avisado em sonhos, retirou-se para a região da Galileia 23e foi morar numa cidade chamada Nazaré. Assim se cumpriu o que fora anunciado pelos Profetas: «Há-de chamar-Se Nazareno».

 

Um professor de religião está a narrar, numa aula do 1.º Ciclo, a fuga da Sagrada Família para o Egipto. Atento e empenhado na história, o mais vivo dos alunos deixa escapar uma pergunta inocente: «Professor, porque é que o anjo não avisou também os pais dos outros meninos de Belém?»

Expõe-se a estas objecções quem esquece que os dois primeiros capítulos do Evangelho de Mateus são páginas de teologia, não de crónica, e muito menos fábulas.

Em sintonia com a cultura e o modo de exprimir-se do seu povo, Mateus apresenta Cristo, a sua identidade, a sua missão e o seu destino não através de raciocínios abstractos, dissertações, fórmulas dogmáticas (como farão mais tarde os teólogos), mas com histórias. No trecho de hoje é proposta uma, constituída por duas cenas: a fuga para o Egipto (vv. 13-15) e o regresso à terra de Israel (vv. 19-23). Cada uma destas cenas termina com uma citação bíblica.

Parece uma história simples, comovente e facilmente integrável com os pormenores anedóticos e graciosos que abundam nos evangelhos apócrifos: leões e dragões que se prostram em adoração diante da Sagrada Família; bois, jumentos e animais de carga que transportam os poucos haveres; as palmeiras que se inclinam para permitirem a Maria colher os seus frutos; as plantas de bálsamo perfumado e medicinal que brotam onde foi lavada a veste do Santo Menino, as estátuas dos ídolos egípcios que caem por terra desfeitas à sua chegada...

O perigo é precisamente este: pensar que se trata de um relato, que se torna uma fábula com final feliz, enquanto que nos encontramos perante um trecho de teologia redigido sob forma de uma história.

Para entendermos a mensagem, iniciamos pela citação do profeta Oseias, que conclui a primeira parte: «do Egipto chamei o meu filho» (v. 15).

Na Bíblia, o «filho primogénito de Deus» era Israel (Ex 4, 22), o povo que Deus tinha ido buscar ao Egipto. Aplicando a Jesus esta expressão, Mateus convida os seus leitores a identificá-lo com este «filho». Quer dar-lhes a entender que Ele está para reviver a história do seu povo. Nele vai repetir-se a história de Israel: como tinham feito os filhos de Jacob, Ele desce ao Egipto e daí volta, quando o Senhor o chama à terra prometida.

Desta forma, Mateus dá-nos uma primeira chave de leitura de todo o seu Evangelho: Jesus assumiu a nossa condição de escravidão para realizar connosco o êxodo para a liberdade. O drama de Israel, oprimido pelo faraó, é o nosso drama, e Jesus veio vivê-lo connosco.

Uma segunda chave de leitura deriva do paralelismo evidente que Mateus estabelece entre Jesus e Moisés.

Antes de morrer, este grande libertador tinha garantido ao seu povo: «O Senhor, teu Deus, suscitará no meio de vós, dentre os teus irmãos, um profeta como eu; a ele deves escutar» (Dt 18, 15). Nasceu assim a esperança do novo Moisés e quando, na região do Jordão, apareceu o Baptista, muita gente pensou que fosse ele o profeta anunciado (Jo 1, 21).

Mas não. É Jesus o libertador esperado e Mateus expõe esta verdade servindo-se de um género literário utilizado com frequência pelos rabis daquele tempo: haggadah midrashica. Duas palavras difíceis, mas que significam simplesmente: história baseada num texto do Antigo Testamento, que no nosso caso é sobre a vida de Moisés. Vejamos os pormenores comuns das histórias das duas personagens:

– Para enfraquecer o povo de Israel, o faraó deu ordem para que fossem lançados ao rio todos os filhos dos hebreus (Ex 1, 15-22), e Herodes mandou matar todos os meninos de Belém.

– Moisés foi o único que escapou ao massacre (Ex 2, 1-10), e também Jesus foi o único que se salvou.

– Mais tarde, Moisés fugiu para o estrangeiro para não ser morto (Ex 2, 15), e Jesus fez o mesmo.

– Por fim, quando morreu o faraó, Deus disse a Moisés: «Vai, volta ao Egipto, pois estão mortos todos os homens que atentavam contra a tua vida. Moisés tomou consigo a sua mulher e os seus filhos, fê-los montar no jumento e voltou à terra do Egipto» (Ex 4, 19-20). Estas são as mesmas palavras que Mateus utiliza e que se encontram no Evangelho de hoje (v. 20). Para sublinhar ainda mais o paralelismo, o evangelista renuncia até a corrigir o uso impróprio do plural: era uma pessoa só – Herodes – que queria a morte de Jesus, e Mateus mantém a expressão usada a propósito de Moisés: «Aqueles que atentavam...»

– É curioso também o facto de a tradição popular e os pintores terem introduzido na história da fuga para o Egipto o jumento, de que o Evangelho não fala, mas que é lembrado na história de Moisés. Demonstram assim ter percebido antes de nós o paralelismo entre as duas personagens.

A mensagem que Mateus quer dar é agora clara: está para iniciar um novo êxodo.

Mesmo depois de se ter instalado na terra prometida, Israel não era livre. A terra prometida não era um lugar material, mas o Reino de Deus: é para lá que as pessoas devem ser conduzidas para serem verdadeiramente livres.

Servindo-se de uma haggadah midrashica, Mateus indica logo no início do seu Evangelho o guia, o libertador: é Jesus, que entra em cena como uma criança frágil e indefesa. As forças do mal parecem ser capazes de facilmente levar a melhor, no entanto acabará por ser Ele o vencedor, como aconteceu com Moisés. Ao lado destes dois libertadores estava Deus.

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.