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8 Domingo, 8 de novembro Novembro de 2026 Domingo XXXII do Tempo Comum

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Música da capela Em pausa

Banquete da Palavra · 26 de outubro

Quem Ama o Ser Humano Encontra Deus

Domingo XXX do Tempo Comum

Solidão, silêncio, ascese são elementos necessários para criar um clima favorável à contemplação, à «vida interior», ao encontro com Deus, mas tornam-se sinal de patologias se nos afastarem das pessoas, se levarem ao desinteresse pelos irmãos. A contraposição entre o amor pela pessoa e o culto a Deus baseia-se em mitos pagãos, não deriva do Evangelho.

Sendo amigo dos homens, Prometeu tinha-lhes ensinado os números, as letras, a arte de domesticar os animais, a agricultura, a navegação, a laboração dos metais; tinha subido ao Olimpo para roubar o fogo aos deuses e dá-lo aos homens, e, por esse motivo, Zeus tinha mandado que o acorrentassem a uma rocha no Cáucaso e ordenado a um abutre que lhe desfizesse eternamente as entranhas. Desta forma, o senhor dos deuses libertava o seu rancor contra aquele que, por ter sido amigo dos homens, tinha ganho a inimizade dos númens.

Nada é mais contrário à mensagem bíblica do que isto. A promoção e o crescimento do ser humano realizam o projecto de Deus: «Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro. Se alguém disser: “Eu amo a Deus”, mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. E nós recebemos dele este mandamento: quem ama a Deus, ame também o seu irmão» (1Jo 4, 19-21).

É com razão que Prometeu, partindo de uma perspectiva bíblica, foi definido «o homem segundo o coração de Deus»; de facto, o Senhor ensinou ao seu povo «que o justo deve ser amigo dos homens» (Sb 12, 19).

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
Quem não ama o irmão que vê, não pode amar a Deus que não vê.

Primeira leitura

Antigamente não existiam embaixadas para proteger os cidadãos residentes no estrangeiro. Aquelas pessoas que, devido a guerras, calamidades naturais ou por motivos de trabalho, eram obrigadas a abandonar as suas terras, a sua tribo ou o próprio clã, eram muitas vezes vítimas de exploração, abusos, injustiças. Abusar dos estrangeiros, submetê-los a trabalhos pesados e humilhantes, reduzi-los à escravidão, era prática habitual para muitos povos. Nada disto acontecia em Israel, onde a lei proibia, de forma severa, que se cometessem injustiças para com estas pessoas indefesas. No Antigo Testamento, Deus avisa frequentemente: «não oprimirás um estrangeiro» (Ex 23, 9), e – como acontece também no texto da leitura de hoje – acrescenta a motivação: «amarás o estrangeiro, porque foste estrangeiro na terra do Egipto» (Dt 10, 17-19).

Os Israelitas sentiam-se intimamente solidários com os estrangeiros, porque, ao longo dos séculos, tinham feito várias vezes a dramática experiência do exílio. A sua profissão de fé inicia com estas palavras: «meu pai era um arameu errante: desceu ao Egipto e ali viveu como estrangeiro» (Dt 26, 5).

A recomendação da leitura, «não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás», é a denúncia de todo o tipo de discriminação que deriva do pertencer a uma raça, a uma etnia, a um grupo social diferente. Depois continua: «Não maltratarás a viúva nem o órfão...» (vv. 21-23).

Estamos de novo perante pessoas sem protecção: a mulher sem marido e os filhos sem pais tornam-se facilmente vítimas de abusos. Deus levanta-se em sua defesa, «pai dos órfãos e defensor das viúvas» (Sl 68, 6), aquele que «protege os que vivem em terra estranha e ampara o órfão e a viúva» (Sl 146, 9).

E como toma conta destas pessoas? Antes de mais, dando ao seu povo indicações como esta: «Quando fizeres a ceifa do teu campo e te esqueceres de algum feixe, não voltes atrás para o levar; deixa-o para o estrangeiro, o órfão e a viúva. Quando varejares as tuas oliveiras, não voltes para colher o resto que ficou nos ramos; deixa-o para o estrangeiro, o órfão e a viúva. Quando vindimares a tua vinha, não rebusques o que ficou; deixa-o para o estrangeiro, o órfão e a viúva. Lembra-te que foste escravo na terra do Egipto» (Dt 24, 19-21).

A propósito desta norma, os rabis observavam: todos os outros preceitos são dados pelo Omnipotente para que os observemos conscientemente, mas este é um preceito que nós cumprimos inconscientemente. Fazendo com que o agricultor esqueça alguma coisa, o Senhor mata a fome ao estrangeiro, ao órfão e à viúva.

Maltratar estas pessoas indefesas significa provocar a cólera de Deus que – aplicando o princípio do olho por olho, dente por dente – promete fazer com que morram pela espada os responsáveis, tornando assim viúvas as suas esposas e órfãos os seus filhos (v. 23).

A escolha que o autor sagrado faz, ao atribuir ao Senhor a prática da lei de talião, é, no mínimo, ousada. A imagem, porém, é eficaz: serve para inculcar a ideia de que o Deus de Israel não é como os deuses pagãos, que se alegravam com o perfume dos incensos e eram apaziguados com a oferta dos holocaustos; Ele é o vingador (e também esta é apenas uma imagem!) dos pobres e dos oprimidos. «Aquele que oprime o pobre – dirão os sábios de Israel – injuria o seu criador» (Pr 14, 31).

A leitura continua com o empréstimo com juros (v. 24). O termo hebraico que traduzimos por juro é néshek, que literalmente significa mordedura. É fácil intuir por que razão o Senhor – que defende a causa dos míseros e o direito dos pobres (Sl 140) – condena repetidamente e com severidade o empréstimo de dinheiro ou de bens com juros: «Se um dos teus irmãos empobrecer e não satisfizer as suas obrigações para contigo, protegê-lo-ás, mesmo que seja um estrangeiro ou um inquilino, e deixa-o viver contigo. Não receberás dele juros nem lucro algum, mas teme o teu Deus para que o teu irmão viva contigo. Não lhe emprestes o teu dinheiro com juros, nem lhe dês os teus mantimentos para disso tirar proveito. Eu sou o Senhor, vosso Deus, que vos fez sair da terra do Egipto» (Lv 25, 35-38).

Comovente, por fim, é o último caso tomado em consideração, o do pobre que, para não morrer de fome, é obrigado a entregar como penhor a própria capa (v. 25). Tratava-se de uma capa sem mangas, com os bordos arredondados e que era enfiada pela cabeça, e que o pobre levava consigo para todo o lado, como único agasalho. Deus determina que, antes de cair a noite, esta lhe seja devolvida, sem condições, pois doutro modo o pobre ficaria sem nada para se cobrir durante a noite. «Se durante a noite, o pobre, privado da sua capa, gemer de frio, Eu – diz o Senhor – ouvirei o seu lamento, escutarei o seu pedido de ajuda e intervirei em seu favor, “porque sou misericordioso”.»

Segunda leitura

Depois de ter afirmado que o nascimento e o desenvolvimento da comunidade de Tessalónica confirmam que, através da pregação do Evangelho, se torna presente e opera o poder de Deus (1Ts 1, 5ab), Paulo declara que também as vidas irrepreensíveis de Silas, de Timóteo e a sua própria deram um testemunho importante a favor da autenticidade da mensagem evangélica (v. 5c).

Tendo-se tornado imitadores dos três apóstolos e partilhado a sua coragem e firmeza perante os ataques das forças do mal, os tessalonicenses tornaram-se, por sua vez, modelos para as igrejas da Macedónia e da Acaia (vv. 6-7).

E, aqui, Paulo deixa-se levar pela alegria e pelo entusiasmo, e de forma hiperbólica exprime a sua estima profunda pela comunidade de Tessalónica: «Em toda a parte se divulgou a vossa fé em Deus, de modo que não precisamos de falar sobre ela» (v. 8).

A última parte do trecho (vv. 9-10), descreve a conversão dos cristãos de Tessalónica: eram pagãos, prestavam culto a ídolos inertes e falsos, e, agora, afastaram-se do mal e aderiram ao único Deus fiel e doador de vida. Tendo escolhido seguir Cristo, não devem temer o juízo futuro que o Senhor pronunciará acerca deles: será certamente favorável, da mesma forma que o é, agora, o do Apóstolo.

Evangelho

Os rabis do tempo de Jesus, ao estudarem a Bíblia, tinham chegado a descobrir 613 mandamentos, dos quais 365 (como os dias do ano) negativos, acções proibidas, e 248 (como os membros do corpo humano) positivos, obras a fazer. Às mulheres bastava cumprir os preceitos negativos.

Pobres «catequistas»! Explicando um mandamento por dia, seriam necessários quase dois anos para os ensinar todos; e é certo que, ao chegarem ao fim, já estariam esquecidos os primeiros. Se era difícil aprendê-los, pode-se imaginar o quanto era ainda mais difícil cumpri-los; evitar os pecados era praticamente impossível. A gente simples do povo, que não tinha preparação para aprender as subtis distinções e a casuística interminável da moral, era desprezada pelos escribas: «Essa multidão que não conhece a Lei é gente maldita» – afirmava Caifás (Jo 7, 49).

Jesus considera esta montanha de normas um jugo pesado, que oprime e cansa, que corta a respiração e a alegria de viver (Mt 11, 28). «Ai de vós – adverte os doutores da Lei – porque carregais os homens com fardos insuportáveis» (Lc 11, 46).

Um dia, um destes escribas, provavelmente um bocado melindrado, aproxima-se dele numa atitude um pouco hostil e, para o tentar, pergunta-lhe: «Qual é o maior mandamento da Lei?» (v. 36). Ele pretende dizer: todos os 613 preceitos são grandes e importantes, e devem ser cumpridos com o máximo empenhamento; são um jugo, mas «é bom para o homem carregar o jugo desde a sua juventude» (Lm 3, 27). Como ousa então defini-los «pesos insuportáveis», pretende talvez anular parte da lei (Mt 5, 17-20)?

Nem todos os rabis eram assim tão rígidos, havia muitos que faziam uma distinção entre preceitos graves e ligeiros, e sentiam a necessidade de fazer uma síntese, de encontrar um que os unificasse. O texto de referência era o famoso Shema’ Israel que todos os dias, de manhã e à noite, cada israelita recitava, e que o próprio Jesus cita: «Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças» (Dt 6, 5).

Havia também quem pusesse em primeiro lugar o amor ao próximo. Conta-se que, um dia, pediram a Hillel – um famoso rabi que viveu poucos anos antes de Cristo – que ensinasse toda a Tora no período de tempo em que conseguisse estar apoiado num só pé. Hillel respondeu: «Aquilo de que tu não gostas, não o faças ao teu próximo! Esta é a Lei, e resto é comentário.»

Fílon  – o filósofo e homem de letras judeu, contemporâneo de Jesus, que viveu em Alexandria do Egipto – considerava que a Lei se resumia no decálogo, e que este, por sua vez, podia ser sintetizado no amor a Deus e ao próximo.

Não há, então, novidade nenhuma nas palavras de Jesus?

Examinemos as suas palavras. O mandamento grande, o primeiro, é o amor a Deus que deve englobar três faculdades: o coração, a alma, a mente.

Antes de tudo, Deus deve ser amado com o coração indiviso (com todo o coração). Nos nossos dias, falamos de crentes e ateus, mas nos tempos bíblicos esta distinção não faria sentido, porque não existiam ateus; a discriminação era entre crentes e idólatras, entre aquelas pessoas que amavam o Deus vivo e verdadeiro e aquelas que se entregavam aos deuses mortos e enganadores. Hoje, há crentes, há gente de igreja, há fiéis que cumprem todas as práticas religiosas, mas que, ao mesmo tempo adoram a conta no banco, a posição social, os títulos honoríficos, a carreira, o poder, as próprias ambições. Estas pessoas têm, certamente, «o coração dividido», não amam com todo o coração – como Jesus pretende.

Com toda a vida (a alma). É pedida ao crente a disponibilidade a sacrificar tudo (dinheiro, interesses, ligações afectivas, direitos) e até mesmo a enfrentar o martírio para salvar a própria fé. Amar a Deus, confiar nele, pode implicar – e acontece com frequência – a necessidade de fazer escolhas e renúncias heróicas. Nesse caso, não é lícito recorrer a subterfúgios ou a mistificações; não podem ser usadas, ou sugeridas a outros, soluções de compromisso duvidoso.

Com toda a mente. O aspecto racional também faz parte do amor a Deus. As emoções não podem ser objecto de um mandamento, mas pode sê-lo a exigência de colocar todo o intelecto na busca do Senhor e da sua vontade. Quem se interessa por futilidades, quem dedica mais tempo a argumentos frívolos do que ao estudo da palavra de Deus, quem ignora as problemáticas teológicas e morais da actualidade, quem não se empenha a descobrir as razões da sua própria fé, acaba por não estar muito envolvido no amor de Deus.

Até aqui, nada de novo em relação à fé judaica, a não ser pelo facto (fundamental para um cristão) de que a descoberta do rosto de Deus e da sua vontade passam através da revelação que vem de Cristo, e que o amor a Deus é fruto do dom do seu Espírito.

Depois de ter enunciado qual é o grande mandamento, Jesus acrescenta que este é também o primeiro. Faz esta especificação para introduzir o segundo, que é semelhante ao primeiro: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (v. 39) e aqui começam as novidades.

A qualificação de «semelhante» – homoia em grego significa igualmente grande, igualmente importante, igual a – confere ao amor pelo ser humano o mesmo valor do amor para com Deus: só Jesus colocou os dois mandamentos no mesmo plano, atribuiu-lhe igual valor.

Na já citada resposta de Hillel, notamos certamente a referência a um convite dirigido por Jesus aos discípulos: «O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque isto é a Lei e os Profetas» (Mt 7, 12). Com certeza que notamos também a diferença: Jesus transformou em positiva (faz...) a recomendação que Hillel tinha formulado na negativa (não faças...). O Mestre utilizou as reflexões dos rabis mais sapientes para comunicar plenamente a luz da sua mensagem.

Também na referência ao amor ao próximo utilizou o mesmo procedimento. Como faziam os rabis, também Ele partiu de um texto bíblico citado com frequência: «Não te vingarás nem guardarás rancor aos filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Lv 19, 18), dando, porém, ao preceito uma perspectiva nova, uma dimensão sem limites. Para o israelita, «próximo» eram os filhos do seu povo; para Jesus é cada ser humano, até mesmo o inimigo (Mt 5, 43-48).

A afirmação conclusiva – «Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas» (v. 40) – deve ser, então, interpretada tendo presente expressões semelhantes usadas pelos rabis. Estes dois mandamentos são o ponto de referência de qualquer outra norma, devem ser tomados como critérios de juízo em relação aos outros preceitos: todas as leis são boas se forem expressão de amor; e devem ser rejeitadas se impedirem ou se se opuserem ao bem da pessoa.

 

Há um último ponto a esclarecer: a relação entre o amor a Deus e o amor ao próximo.

Notamos que, nos autores do Novo Testamento, há uma tendência progressiva a unificar os dois mandamentos. Marcos, o primeiro dos evangelistas, fala de primeiro e segundo mandamento; depois dele, Mateus retoma a mesma expressão e acrescenta: o segundo é semelhante, ou seja, equivale ao primeiro; Lucas não fala de primeiro e segundo, mas une-os num só (Lc 10, 25-28). João recorda as palavras de Jesus que fala de um só mandamento: «Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos reconhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 34-35).

Em seguida, e por todo o resto do Novo Testamento, já não se referem dois mandamentos, mas um só, o amor ao homem: «Toda a Lei – lembra Paulo – se cumpre plenamente nesta única palavra: ama o teu próximo como a ti mesmo» (Gl 5, 14), e, escrevendo aos Romanos, diz: «Não fiqueis a dever nada a ninguém, a não ser isto: amar-vos uns aos outros. Pois quem ama o próximo cumpre plenamente a Lei. De facto: “Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás”, bem como qualquer outro mandamento, estão resumidos numa só frase: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” O amor não faz mal ao próximo. Assim, é no amor que está o pleno cumprimento da Lei» (Rm 13, 8-10).

Sabemos o que significa amar o homem, mesmo que nem sempre seja fácil determinar como este amor se pode concretizar. Mas como se faz para amar a Deus?

Mantendo separados os dois mandamentos, corre-se o risco de pôr Deus e o próximo em competição, e pensar que disputam o coração do homem, o seu tempo, os seus pensamentos, os seus interesses, de forma que aquilo que é dado a um é tirado ao outro. Amar a Deus não significa retirar alguma coisa ao próximo para lhe dar a Ele. Tinham sido os deuses pagãos a criar os homens para que estes os servissem com ofertas, sacrifícios, prostrações. O Deus de Jesus nunca pediu nada para si mesmo, é Ele que se põe ao serviço do homem, chegando ao ponto de se inclinar para lhe lavar os pés, e que pede que façamos da mesma forma: «Se Deus nos amou – diz João – também nós devemos amar-nos uns aos outros» (1Jo 4, 11).

Amar este Deus significa assimilar os seus sentimentos em relação ao homem, significa amar o órfão, a viúva e o estrangeiro, da mesma forma que Ele os ama e protege.

A ligação entre os dois mandamentos tinha sido notada por vários rabis. Alguns deles tinham até intuído a razão pela qual são uma referência recíproca, razão sublime que fazemos nossa: o amor pelo homem é também amor a Deus, porque dirigido à sua imagem (Gn 1, 27).

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.