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8 Domingo, 8 de novembro Novembro de 2026 Domingo XXXII do Tempo Comum

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Banquete da Palavra · 21 de novembro

Tem por trono uma cruz

Domingo XXXIV - Nosso Senhor Jesus Crito Rei do Universo do Tempo Comum

Em Roma governa o imperador Tibério quando, junto ao rio Jordão, aparece o Baptista. Aquilo que ele diz provoca entusiasmos, desperta expectativas, suscita esperanças.

As autoridades políticas e religiosas preocupam-se porque consideram subversiva a sua mensagem. Diz: O Reino de Deus está próximo! (Mt 3, 2).

Depois dele, Jesus começa a percorrer cidades e aldeias anunciando em todo o lado: Chegou a hora, o Reino de Deus está próximo! (Mc 1, 15). Por vezes diz também: O Reino de Deus já está no meio de vós (Lc 17, 21).

O Reino é o centro da pregação de Jesus; basta pensar que no Novo Testamento o tema do Reino de Deus está presente 122 vezes, e dessas 90 pela boca de Jesus.

Poucos anos depois da sua morte, encontramos os seus discípulos que, em todas as províncias do Império e na própria Roma, anunciam o Reino de Deus (Act 28, 31).

Gostaríamos que o Baptista, Jesus e os apóstolos nos explicassem esta expressão, mas nenhum deles o faz.

Notamos, porém, que Jesus se afasta de quem dá à sua missão uma interpretação político-nacionalista (Mt 4, 8s), todavia, a sua mensagem contém uma inegável carga subversiva para as estruturas existentes na sociedade. É considerado perigoso pelos detentores do poder, tanto religioso como político.

Iniciado como uma pequena semente, o Reino está destinado a crescer e a tornar-se uma árvore (Mt 13, 31-32); tem uma força irresistível e provocará uma transformação radical do mundo e do homem.

A realeza de Jesus é difícil de entender, baralhou até mesmo a cabeça de Pilatos (Jo 18, 33-38). É demasiado diferente das deste mundo. Quantas vezes ao longo dos séculos foi equivocada!

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
Venha o teu Reino!

Primeira leitura

David é um pobre pastor de Belém. Desde jovem que tem uma vida muito aventureira: põe-se à frente de um grupo de dispersos, refugia-se no deserto e começa a lutar contra os filisteus e contra o seu próprio rei, Saul.

Impressionados com as suas capacidades – a sua inteligência, a sua força, a sua coragem – os membros da tribo de Judá proclamam-no rei. Infelizmente, o reino está muito reduzido: estende-se por um pequeno território no sul de Israel. Todo o norte está ocupado pelas outras tribos que permanecem fiéis a Saul.

A leitura de hoje conta como um dia os anciãos das tribos do norte se apresentaram a David na cidade de Hebron e lhe disseram: nós percebemos que Deus te escolheu como chefe não apenas de uma tribo, mas de todo o Israel. Já antes, quando reinava Saul sobre todos nós, eras tu quem nos guiava contra os inimigos e nos fazias regressar vitoriosos de todas as batalhas. Agora considera-
-nos teus súbditos; nós somos «dos teus ossos e da tua carne».

David aceita e é ungido como rei de todo o Israel. Assim tem início o reino de David, um reino grande e potente ao qual os povos do mundo olham, durante algumas dezenas de anos, com admiração, temor e respeito.

Depois David morre e sucede-lhe no trono o filho Salomão. Este consegue conservar unido o reino de seu pai, mas bem cedo as tribos se separam de novo e Israel volta a ser um povo insignificante, escarnecido pelas grandes nações vizinhas.

Reconstituir um dia o grande reino de David, tornarem-se dominadores do mundo: este o sonho dos Israelitas no tempo de Jesus. Por este motivo, todos os dias rezam ao Senhor para que envie o seu messias.

Por que é que este relato nos é proposto como primeira leitura da festa de Cristo Rei? É simples: porque Jesus é a resposta de Deus às orações e às expectativas do seu povo. É Ele o Messias, o Rei que «dominará de um ao outro mar, do grande rio até aos confins da terra» (Sl 72, 8).

Então, porque motivo os Israelitas não o acolheram? Os anciãos do povo o mandaram matar, em vez de o ungirem como rei, como fizeram os seus antepassados com David em Hebron? A razão será explicada no Evangelho.

Segunda leitura

Tendo concluído a Carta aos Gálatas, durante quatro domingos meditaremos sobre a Carta aos Colossenses. Paulo encontrava-se na prisão (Cl 4, 3.10.18) quando, do vale do Lico, na Ásia Menor, chega para o visitar Epafras, o grande apóstolo que fundou e mantém vivas as comunidades daquela região. As notícias que ele traz são alarmantes. Os cristãos deixaram-se seduzir por estranhas doutrinas: crêem que os céus estão povoados por potências, por espíritos que movem o universo; consideram que estes espíritos estão dotados de uma força misteriosa, capaz de condicionar a vida das pessoas, estão assustados e estão convencidos de que são superiores a Cristo. Paulo escreve aos Colossenses e recomenda-lhes que façam circular a sua Carta também nas comunidades próximas (Cl 4, 16).

Inicia com o hino a Cristo que nos é proposto na leitura de hoje.

Na primeira parte (vv. 15-17), celebra o primado de Cristo sobre toda a criação.

Na segunda (vv. 18-20), proclama que Cristo é o primeiro também na nova criação, porque Ele foi o primeiro a vencer a morte e a abrir a todos o caminho para Deus. Assim, Ele submeteu ao seu próprio poder os Tronos, as Dominações, os Principados e as Potestades (eram estes os nomes com que os Colossenses designavam os espíritos misteriosos que lhes incutiam temor).

O medo dos espíritos maus, dos encantamentos, dos malefícios, a crença nos ritos mágicos, nas superstições, não são compatíveis com a fé na vitória e no domínio de Cristo sobre todas as criaturas.

Evangelho

Os Israelitas aguardavam um grande rei.

Sonhavam-no rico, vestido com roupas preciosas, forte, sentado num trono de ouro. Queriam vê-lo dominar todos os povos e humilhar os inimigos, obrigado-os a prostrarem-se a seus pés e a lamberem o pó (Sl 72, 9-11). Nutriam a esperança de que o seu reino seria eterno e universal.

No trecho evangélico é apresentada a resposta de Deus a estas expectativas.

Estamos no Calvário, Jesus está pregado na cruz, tem dois bandidos a seu lado, sobre a sua cabeça está escrito: Este é o rei dos Judeus (v. 38).

Seria este o esperado filho de David?

Não, não é possível: este é apenas um desventurado. Onde estão os sinais da realeza?

Ele não domina do alto de um trono de ouro, está pregado numa cruz; não está rodeado de servos que cuidam dele, que se inclinam a seus pés; não há soldados prontos a executar as suas ordens.

Ele está perante pessoas que o insultam, que o escarnecem; não veste mantos luxuosos, está completamente nu.

Não ameaça ninguém, usa palavras de amor e de perdão para todos; não obriga os seus inimigos a lamberem o pó, é Ele quem bebe o vinagre. A seu lado não tem os seus ministros, os generais do exército, mas dois malfeitores.

Um dia Tiago e João tinham pedido: «Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda» (Mc 10, 37). Se eles soubessem o que estavam a pedir...

Que estranha realeza a de Jesus! É o oposto daquela que as pessoas estão habituadas a admirar.

Infelizmente, muitos cristãos não cultivaram esperanças muito diferentes das dos Judeus: identificaram o Reino de Cristo com as vitórias e os triunfos e com o respeito que os chefes da Igreja conseguiam incutir aos grandes deste mundo.

A inscrição posta sobre a cruz proclama rei dos Judeus um homem derrotado, incapaz de se defender, privado de qualquer poder. Um rei assim faz desmoronar todos os nossos projectos. Surge então, insistente, a pergunta: como é possível que seja este o messias prometido?

Vejamos de perto as três cenas que são descritas no Evangelho de hoje.

 

Na primeira (vv. 35-37), são introduzidos três grupos de pessoas que estão de pé junto à cruz, aos pés do «rei».

Está presente antes de mais o povo. Como se comporta? Não faz nada, nem de bem nem de mal: está a observar (v. 35). Está admirado, parece não se dar conta do que está a acontecer. Não entende como é que um homem que morre sem reagir possa ser o rei tão esperado.

É um justo, mas então por que é que Deus não intervém para o salvar?

Notamos várias vezes durante este ano litúrgico, que Lucas nutre grande simpatia pelos pobres, pelos últimos, pela gente simples. Este evangelista apresenta-nos o povo mudo e perplexo aos pés da cruz: quer dizer-nos que não é responsável pela morte de Jesus. Alguns versículos mais à frente notará: «E toda a multidão que se tinha aglomerado para este espectáculo, vendo o que acontecera, regressava batendo no peito» (Lc 23, 48).

O povo admirado representa toda aquela gente bem disposta que quereria entender o projecto de Deus, mas não consegue, porque quem os deveria iluminar está, por sua vez, cego.

 

Para além do povo, aos pés da cruz estão os chefes. Aqui estão os verdadeiros responsáveis! Estes, como os anciãos que em Hebron ungiram o rei David, deveriam reconhecer em Jesus o messias prometido. Pelo contrário, zombam dele: não é o rei que lhes agrada, é um derrotado, é incapaz de se salvar, não desce da cruz (v. 35).

Por que é que Jesus não dá a prova que eles pedem? Por que não desce da cruz? Por que não faz um milagre? Se o fizesse convenceria todos e evitaria um grande crime.

Se descesse da cruz, todos acreditariam. Mas em quê? No Deus forte e potente, no Deus que derrota e humilha os inimigos, que responde golpe a golpe às provocações dos ímpios, que incute temor e respeito, que não brinca... E este não é o Deus de Jesus.

Se descesse da cruz trairia a sua missão: confirmaria a ideia falsa de Deus que têm os guias espirituais do povo. Confirmaria que o verdadeiro Deus é aquele que os poderosos deste mundo sempre adoraram porque é semelhante a eles: forte, arrogante, opressor, vingativo, armado.

Este Deus forte é incompatível com aquele que nos é revelado por Jesus na cruz: o Deus que ama todos, até mesmo quem o combate, que perdoa sempre, que salva, que se deixa derrotar por amor.

Deus não é omnipotente porque com o seu imenso poder pode fazer o que quer, mas sim porque ama imensamente, porque se põe sem limites e sem condições ao serviço do homem. Não tem uma omnipotência do domínio, mas do serviço. Vimo-lo em Jesus que se baixa para lavar os pés aos discípulos: aquele é o rosto autêntico do Deus omnipotente, do rei do universo.

 

O terceiro grupo que se encontra aos pés da cruz é composto pelos soldados. Trata-se de homens pobres, arrancados às suas famílias e mandados, por pouco dinheiro, a cometer violências contra um povo de língua, costumes e religião diferentes.

Longe das suas mulheres, dos filhos, dos amigos, perderam todos os sentimentos humanos e desafogam-se contra alguém que é mais fraco do que eles. Mais do que culpados, são vítimas da loucura de outros superiores a eles.

Sabem apenas executar ordens, não podem manifestar uma opinião, repetem as palavras que ouviram dizer aos seus chefes: «Se és o rei dos Judeus, salva-te a ti mesmo» (v. 36).

Por medo, por pouco dinheiro, por ignorância venderam a própria cabeça e a própria consciência; colaboram com a injustiça, o abuso, a violência contra os mais fracos.

Foram educados a acreditar apenas na força, e quem confia nas armas respeita quem vence e escarnece de quem perde. Ora, Jesus está do lado dos derrotados.

 

A segunda cena (v. 38), ocupa o centro do trecho. Apresenta a escrita posta por cima da cabeça de Jesus.

Lucas parece dirigir um convite aos cristãos das suas e das nossas comunidades: contemplar o rei pregado na cruz! Diante dele torna-se ridícula qualquer avidez de glória, vontade de domínio, desejo de chegar aos primeiros lugares. Do alto da cruz, Jesus indica a todos quem é o rei escolhido por Deus: é aquele que aceita a humilhação, que sabe que o único modo para dar glória a Deus é o de escolher o último lugar para servir o pobre.

 

Contemplamos o que acontece aos pés da cruz, depois consideramos a inscrição posta em cima.

A terceira cena (vv. 39-49), desenrola-se aos lados de Jesus, onde estão crucificados dois malfeitores.

Como o povo, como os chefes, como os soldados, um deles não compreende nada. A única coisa que espera do messias é a libertação do suplício a que foi submetido; Jesus não o ajuda, mostra-se incapaz de atender o seu pedido.

O segundo malfeitor é o único que reconhece em Jesus o rei esperado: «Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com a tua realeza.»

Chama-o pelo nome. Entendeu que com Ele pode ter esta confiança. Sente-o amigo, o amigo de quem teve uma vida devastada. Não o considera um «senhor», mas um companheiro de viagem, alguém que aceitou sofrer, mesmo sendo justo, a sorte dos ímpios.

Não espera de Jesus uma libertação milagrosa, pede apenas para fazer com Ele os últimos passos da vida, daquela vida que foi um suceder-se de erros e crimes.

Jesus promete-lhe: «Hoje estarás comigo no Paraíso.»

A história deste malfeitor é a de cada pessoa: quem não se comportou como ele? Quem alguma vez não acabou com a vida de um irmão através do ódio, das calúnias, das injustiças? Quem não provocou pequenos ou grandes desastres na sociedade, nas famílias, na comunidade cristã?

No fundo do coração, muitos continuam a pensar que, na cruz, a realeza de Jesus não foi bem celebrada. Aquele foi um momento infausto. A manifestação verdadeira acontecerá mais tarde, no fim do mundo, no momento do ajuste de contas. Então, sim, que se verá brilhar a glória de Cristo: Ele chegará com o seu exército de anjos e mostrará a todos, especialmente a quem o crucificou, a sua potência.

Antes de morrer, Jesus pronunciou uma sentença de absolvição para com os seus algozes. Será válida também no fim ou tratou-se de uma afirmação provisória e susceptível de revisões? Será verdade que aqueles que o condenaram e mataram não sabiam o que faziam (Lc 23, 34)? Talvez haja quem considere que no calvário Jesus não estava nas condições ideais para avaliar objectivamente as responsabilidades daqueles que o estavam a crucificar e, ainda menos, para manifestar toda a sua glória.

Pois bem, se ainda cultivamos tais pensamentos, não entendemos o rosto de Deus que Jesus nos revelou.

O processo contra quem matou Jesus – que fique claro! – não será reaberto; não haverá uma revisão da sentença. Jesus pronunciou o seu juízo definitivo: absolveu os seus algozes, salvou-os no momento mais glorioso da sua vida: quando, na cruz, manifestou o máximo do seu amor.

Para nós, um rei triunfa quando vence, derrota, humilha. Tentamos de todas as formas adequar a imagem de Cristo-Rei às dos reis deste mundo. Não queremos acreditar que Ele triunfa no momento em que perde, no momento em que dá a vida.

Este soberano que reina do alto de uma cruz perturba-nos porque exige uma mudança radical das escolhas da nossa vida. Exige, por exemplo, que se ofereça o perdão incondicional a todas as pessoas que nos fazem mal.

Nesta perspectiva, também o juízo final não pode ser temido, mas deve ser aguardado com alegria porque... vão-se inverter as partes.

No final, não será Deus a julgar-nos, mas nós a «julgá-lo».

Despidos das nossas misérias, da mesquinhice e rudeza que tornaram pesada a nossa mente e duro o nosso coração, curados da cegueira espiritual que nos impediu de compreender as Escrituras (Lc 24, 25), «vê-lo-emos face a face» (Ap 22, 4), «vê-lo-emos tal como Ele é» (1Jo 3, 2). Então estaremos em condições de pronunciar um «juízo» sobre Ele. Admirados, teremos que admitir: Deus é maior do que o nosso coração (1Jo 3, 20).

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.