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8 Domingo, 8 de novembro Novembro de 2026 Domingo XXXII do Tempo Comum

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Banquete da Palavra · 14 de novembro

Coragem, levantem a cabeça!

Domingo XXXIII do Tempo Comum

Estas situações de desalento encontram-se em todas as épocas, de modo que quem quer fazer previsões sobre o fim do mundo não tem dificuldade em estabelecer datas. É o que fazem as Testemunhas de Jeová.

Os últimos tempos, para os autores do Novo Testamento, não são os que virão daqui a milhões de anos, mas aqueles que estamos a viver, aqueles que tiveram início com a Páscoa.

Não é fácil entender o sentido daquilo que está a acontecer nestes últimos tempos. Os nossos olhos estão, por assim dizer, velados, embaciados. Demasiadas realidades permanecem envolvidas em mistério: desgraças, absurdos inexplicáveis, contradições, sinais de morte. É difícil ver um projecto de Deus em tudo isto.

Utilizando uma linguagem e imagens apocalípticas, Jesus quer tirar o véu que nos impede de ver o mundo com os olhos de Deus. Quando Ele parece anunciar o fim do cosmo, não se refere «ao» fim do mundo, mas está a ajudar-nos a entender «o» fim do mundo.

Apocalipse não significa catástrofe, mas sim revelação, desvendamento.

Precisamos que a palavra de Cristo nos ilumine e, entre os sarrabiscos traçados pelos homens, nos permita ver os traços da obra-
-prima que o Senhor está a pintar.

Para interiorizar a mensagem, repetiremos
Senhor, fica perto de mim, em ti eu pus a minha esperança.

Primeira leitura

O profeta Malaquias vive num tempo muito difícil. Os exilados deportados para a Babilónia em 587 a.C. voltaram já há bastantes anos. Confiaram nas palavras dos profetas que tinham garantido um reino de paz e de justiça, e lá estão eles numa sociedade onde os furtos, os abusos, as violências contra os fracos não parecem diminuir. Há todas as razões para perder a confiança em Deus e nos mediadores da sua palavra, os profetas. Algumas pessoas começam a manifestar abertamente a sua desilusão e o seu desconforto: «De que vale – dizem eles – servir a Deus? Que lucrámos em ter observado os seus preceitos e em ter andado de luto diante do Senhor do universo? E agora temos que chamar ditosos aos arrogantes, pois eles fazem o mal e prosperam. Põem Deus à prova e ficam impunes» (Ml 3, 14-15).

Malaquias ouve este tipo de conversas e não se indigna. Entende que quando se tem o coração amargurado desabafa-se desta forma. Entende que o povo não precisa de censuras, mas de palavras de consolação e de esperança, e por isso procura infundir coragem. É verdade – diz ele – que as circunstâncias são dramáticas, mas não se pode vacilar, é preciso continuar a ser fiel ao Senhor e bem cedo se verá a diferença entre justo e ímpio, entre quem serve Deus e quem não o serve (Ml 3, 18).

É aqui que tem início a nossa leitura.

«Há-de vir – anuncia Malaquias – o dia do Senhor, ardente como uma fornalha» (v. 19). O Senhor decidiu atingir os malvados e fazer triunfar os justos, está para provocar um grande incêndio, está para enviar um dilúvio de fogo, terrível. Quem comete a injustiça será queimado como a palha, enquanto que para os justos «nascerá o sol da justiça, trazendo nos seus raios a salvação» (vv. 19-20).

Alguns profetas falaram desta perturbação cósmica e à imagem do fogo acrescentaram outras. Disseram: no momento da passagem do mundo antigo ao mundo novo, o Sol e a Lua deixarão de dar a sua luz e as estrelas cairão (Jl 2, 10-11); esse será um dia de ira, de angústias, de aflições, de ruínas, de extermínio e as pessoas hão-de tremer assustadas (Sf 1, 14-18).

Que significado têm estas expressões dramáticas? Trata-se de imagens ou, como afirmam os seguidores de certas seitas, de informações sobre o que acontecerá no fim do mundo?

Destes cataclismos, destas catástrofes fala-se não só no Antigo e no Novo Testamento, mas, sobretudo, na chamada literatura apocalíptica que atingiu o seu auge precisamente no tempo de Jesus e dos apóstolos.

Trata-se de imagens coloridas que seria ingénuo e enganador interpretar à letra.

A ira de Deus não é senão uma expressão do seu irreprimível amor. Com este antropomorfismo – muito frequente na Bíblia –, o profeta quer pôr em relevo a paixão do Senhor pelo seu povo que está a sofrer, quer recordar a todos a seriedade do seu amor, o seu envolvimento no pacto que o liga ao homem e, por fim, a sua vitória contra todo o mal, contra todos os obstáculos que se interpõem à sua obra de salvação.

O fogo não é ateado contra as pessoas, mas lançado contra tudo aquilo que impede a pessoa de viver: a injustiça, a inveja, a avidez da riqueza, os ódios, as violências, a corrupção moral.

O fogo é a imagem da intervenção de Deus no mundo para pôr fim a toda a forma de mal. Assim como nenhuma erva seca pode fugir às chamas, também nenhuma forma de mal – diz o profeta – poderá escapar à intervenção purificadora e salvadora de Deus.

A mensagem desta primeira leitura, portanto, não é de medo, mas de consolação e de esperança.

Quando Malaquias afirma que os ímpios serão destruídos, não está a afirmar que o Senhor, um dia, punirá severamente os maus lançando-os nas chamas do Inferno.

O seu fogo aniquilará, como palha, não as pessoas, mas o mal que está em cada uma delas.

 

O povo que ouviu esta mensagem animadora, e talvez até mesmo o próprio Malaquias, pensou numa intervenção decisiva de Deus, imediata ou a curto prazo.

Nada aconteceu.

Esperaríamos então que os Israelitas, desiludidos, tivessem posto de lado estes oráculos de bem considerando-os enganos, alucinações, sonhos de profetas iludidos, mas pelo contrário conservaram-nos e continuaram a aguardar com uma confiança inabalável a vinda do «dia ardente como uma fornalha» e a aparição do «sol de justiça».

À luz da Páscoa, hoje conseguimos reler e compreender estes textos.

O sol de justiça é Jesus, o dia ardente como uma fornalha é o da sua morte e ressurreição, o fogo que destruirá todo o mal é o Espírito que Ele nos enviou, é a sua Palavra, o seu Evangelho que já começou a renovar a face da terra.

O mundo novo, o reino de Deus, está no meio de nós, mesmo que tenhamos que aguardar o fim para verificar o pleno triunfo do bem no coração de cada pessoa.

Segunda leitura

Na comunidade de Tessalónica, estavam a difundir-se algumas vozes perigosas: alguns cristãos fanáticos afirmavam que este mundo estava a chegar ao fim e que Jesus estava para voltar e dar início a um mundo novo e a uma humanidade nova. Esta insensatez derivava de pretensas visões e de revelações que alguém afirmava ter recebido de Deus.

As histórias que estes exaltados punham em circulação perturbavam muito a comunidade.

Alguns estavam convencidos de que, estando eminente o regresso de Cristo, não valia a pena continuar a trabalhar. Perdiam tempo em coscuvilhices e viviam à custa dos outros, lançando no descrédito e no ridículo todos os crentes (v. 11).

A situação tornava-se cada vez mais preocupante e escandalosa.

Paulo foi obrigado a intervir.

Na última parte da sua segunda Carta, avisa decididamente os Tessalonicenses. Recorda-lhes, em primeiro lugar, o exemplo da sua vida: eu nunca fui um preguiçoso – diz Paulo – nunca fui um peso para ninguém; anunciei o Evangelho gratuitamente e não aceitei esmolas. «Vós sabeis... que trabalhámos dia e noite, com esforço e fadiga, para não sermos pesados a nenhum de vós» (v. 8).

A independência económica é um motivo de grande orgulho para Paulo, que várias vezes nas suas Cartas toca o assunto (1Ts 2, 9: 1Cor 4, 12; 2Cor 11, 7-10; 12, 13-18). Aos anciãos de Éfeso diz: «Jamais cobicei a prata, nem o ouro, nem o vestuário de alguém. E bem sabeis que foram estas mãos que proveram às minhas necessidades e às dos meus companheiros» (Act 20, 33-34).

Depois de ter apresentado o exemplo da própria vida, Paulo cita aos Tessalonicenses um provérbio popular: «Quem não trabalhar, também não deve comer» (v. 10) e, mais uma vez, lembra aos cristãos a necessidade de viver do próprio trabalho (v. 12).

O «mundo novo» é um dom de Deus, mas para ser construído precisa do empenho do homem.

Quem não trabalha, quem não põe à disposição dos irmãos todas as suas capacidades, não colabora na construção do reino de Deus.

Evangelho

Lucas escreve o seu Evangelho por volta do ano 85 d.C.: nos cinquenta anos que passaram da morte e ressurreição de Jesus aconteceram factos tremendos. Houve guerras, revoluções políticas, catástrofes, o templo de Jerusalém foi destruído, os cristãos são vítimas de injustiças e perseguições.

Como explicar acontecimentos tão dramáticos?

Alguém recorre às palavras do Mestre: «Haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fomes e epidemias. Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais do céu. Mas antes de tudo isto, deitar-vos-ão as mãos e hão-de perseguir-vos» (vv. 11-12). Esta é a explicação! – começa-se a dizer – Jesus tinha previsto tudo.

As desgraças (principalmente a destruição do templo de Jerusalém) são sinais do fim do mundo que se aproxima e do Senhor que está para voltar sobre as nuvens do céu.

O Evangelho de hoje quer responder a estas falsas expectativas e corrigir a interpretação errada que algumas pessoas davam das palavras do mestre.

Já na altura, a sua linguagem apocalíptica se prestava a ser mal entendida.

Examinemos o trecho mais em pormenor.

 

Algumas pessoas aproximam-se de Jesus que se encontra no templo e convidam-no a admirar a sua beleza: as enormes pedras de calcário branco cortadas de modo perfeito pelos operários de Herodes, as decorações, os ex-votos, a videira de ouro que pende das paredes do vestíbulo e que se estende sempre mais através dos sarmentos oferecidos pelos fiéis, a fachada recoberta de placas de ouro da espessura de uma moeda... Com razão os rabinos afirmam: «Quem não viu o templo de Jerusalém, não contemplou a mais bela das maravilhas do mundo.»

A resposta de Jesus é surpreendente: «Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra.» Admirados, perguntam-lhe: «Mestre, quando sucederá isto? Que sinal haverá de que está para acontecer?» (vv. 5-7).

Jesus não pode especificar a data: não a conhece, assim como não conhece nem o dia nem a hora do fim do mundo (Mt 24, 36). Ele não é um mago, um adivinho, por isso não responde.

Por que motivo introduz Lucas este episódio? Fá-lo por uma preocupação pastoral: quer advertir as suas comunidades para que tenham cuidado com quem confunde os sonhos com a realidade. Alguns exaltados atribuíam a Jesus previsões que eram apenas fruto de especulações extravagantes.

O evangelista convida os cristãos a deixarem de seguir patranhas e a reflectir sobre a única coisa que deve interessar: que fazer, concretamente, para colaborar no advento do mundo novo, do reino de Deus.

Os «falsos profetas» foram sempre um perigo sério para as comunidades cristãs, e Lucas recorda que também Jesus tomou o cuidado de avisar os seus discípulos acerca daquelas pessoas que garantem que o fim do mundo está próximo. Recomendou vivamente: «Não os sigais!» (vv. 8-9). O fim não chegará cedo; a gestação do mundo novo será difícil e longa.

 

O que acontecerá no tempo que decorre entre a vinda do Senhor e o fim do mundo?

Jesus responde a esta pergunta recorrendo à linguagem apocalíptica.

Fala do levantamento de povos contra povos, de terramotos, carestias e pestilências, de factores aterrorizadores, de sinais grandes no céu (vv. 10-11). Estes serão retomados e explicitados em seguida: «Haverá sinais no Sol, na Lua e nas estrelas; e, na Terra, angústia entre os povos, aterrados com o bramido e a agitação do mar; os homens morrerão de pavor, na expectativa do que vai acontecer no universo, pois as forças celestes serão abaladas» (Lc 21, 25-26). Que pretende dizer?

Uma das ideias recorrentes no tempo de Jesus, era a de que o mundo era demasiado corrupto e que em breve seria substituído por uma realidade nova, feita germinar por Deus. Dizia-se que no momento da passagem do antigo para o novo, as pessoas iriam apanhar um grande susto, os povos e as nações seriam abaladas, surgiriam violências, doenças, desgraças, guerras. O Sol apareceria durante a noite e a Lua durante o dia; as árvores iriam começar a derramar sangue, as pedras a partirem-se e a gritar.

Esta linguagem, estas imagens eram muito conhecidas.

Jesus serve-se delas para dizer aos discípulos que está iminente a passagem entre as duas épocas da história. O seu é um anúncio de alegria e esperança: quem sofre a dor e espera o Reino de Deus deve saber que está para surgir a aurora de um novo, esplêndido dia. É por esta razão que Ele exorta os discípulos a não se assustarem: não vos aterrorizeis (v. 9) e, pouco mais à frente, recomenda: «Quando estas coisas começarem a acontecer, cobrai ânimo e levantai a cabeça, porque a vossa redenção está próxima» (Lc 21, 28).

 

Depois de ter convidado a considerar o tempo de espera do seu regresso como uma gestação que prepara o parto, Jesus anuncia as dificuldades que os seus discípulos deverão enfrentar (vv. 12-19).

Qual será o sinal de que o reino de Deus está a nascer e vai ser instaurado no mundo?

Não os triunfos, os aplausos, a aprovação das pessoas, mas as perseguições.

Jesus prevê para os seus discípulos: a prisão, as calúnias, a traição por parte dos próprios familiares e dos melhores amigos.

Nestas situações difíceis, estes poderão ser tentados a desencorajarem-se, a pensar que fizeram as escolhas erradas na sua vida.

Porquê suportar tantos sofrimentos e fazer tantos sacrifícios? Tudo inútil: os ímpios continuam sempre a prosperar, a cometer violências, a levar a melhor sobre os justos. Jesus responde que isto não acontecerá! Deus guia os acontecimentos da vida das pessoas e orienta até mesmo os projectos dos maus para o bem dos seus filhos e a instauração do Reino.

«Não preparem a vossa defesa» – recomenda ainda. Que significa isto? Os discípulos deverão talvez esperar libertações milagrosas?

Não. Jesus avisa-os do perigo de confiarem nos raciocínios e nos cálculos que as pessoas costumam fazer.

Se os seus discípulos crêem poder defender-se utilizando a lógica deste mundo, em vez da lógica de Deus, estarão a colocar-se no mesmo plano dos seus opositores e então perderão.

Deverão aceitar serenamente o facto de que não podem recorrer aos métodos de quem os persegue: a calúnia, a hipocrisia, a corrupção, a violência. Deverão convencer-se de que a sua força está naquilo que as pessoas consideram fragilidade e fraqueza. São ovelhas no meio de lobos, não podem disfarçar-se de lobos.

Se forem verdadeiramente coerentes com as exigências da sua vocação, será Jesus, bom pastor, a defendê-los. Dar-lhes-á uma força a que ninguém poderá resistir: a força da verdade, do amor, do perdão.

Por fim, Jesus evoca uma expressão muito usada no seu tempo: «Nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá.» Não promete preservar os seus discípulos das desventuras e dos perigos. Os cristãos perseguidos não devem esperar libertações milagrosas: perderão os bens, o trabalho, a reputação, talvez até mesmo a vida por causa do Evangelho. Todavia, não obstante as aparências contrárias, o Reino de Deus continuará a avançar.

Os que se sacrificaram por Cristo, talvez não colham os frutos do bem que semearam, mas devem cultivar a alegre certeza de que os frutos serão abundantes. Neste mundo não será reconhecido o valor do seu sacrifício. Serão esquecidos, talvez amaldiçoados, mas Deus – e é o seu juízo que conta! – dar-lhes-á a recompensa dos justos.

Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.