Banquete da Palavra · 7 de novembro
Entre medos e ilusões, uma só esperança
Domingo XXXII do Tempo Comum
As pessoas de todos os tempos tiveram que se confrontar com o enigma angustiante da morte e tentaram de todas as formas superá-
-lo ou, pelo menos, exorcizá-lo.
Os Egípcios recorreram à mumificação para preservar o corpo da decomposição, celebraram ritos, cerimónias, práticas funerárias complicadas e minuciosas para garantir ao defunto uma vida no mundo dos mortos.
Os povos da Mesopotâmia falaram da morte como de uma descida para «o País sem regresso» e, resignados, tiveram que admitir: «Quando os deuses formaram a humanidade, atribuíram a morte aos homens e ficaram com a vida nas suas mãos.»
Outros pensaram na possibilidade de um regresso à vida neste mundo através de um suceder-se de inumeráveis reencarnações.
Quantas coisas acontecem na nossa vida: nascemos, crescemos, enamoramo-nos, formamos uma família, educamos os filhos; experimentamos alegrias e dores, cultivamos sonhos e esperanças... Depois, um dia, parece concluir-se no nada da morte.
Tudo acaba, tudo desaparece.
Interrompem-se os diálogos de amor, os afectos, os relacionamentos com as pessoas queridas. Voltamos ao nada de onde nos tinha tirado um gesto de amor dos nossos pais? É possível que Deus tenha criado o homem para um destino tão cruel?
O que ficou de Abraão, de Isaac, de Jacob? Apenas os seus nomes?
A estas interrogações Deus deu uma resposta. «A esperança cristã – afirmava Tertuliano, o famoso Padre da Igreja do século II – é a ressurreição dos mortos; tudo aquilo que nós somos, somo-lo na medida em que acreditamos na ressurreição.»
Ao despertar, Senhor, saciar-me-ei contemplando o teu rosto.
Primeira leitura
Os primeiros livros da Bíblia mostram claramente que, nos tempos mais antigos, os Israelitas não acreditavam numa outra vida.
Se lhes tivéssemos perguntado: «Há uma ressurreição dos mortos?», eles teriam respondido: «Não sabemos! A nós o que importa é a vida neste mundo, vida que queremos cheia de alegrias e satisfações.»
Se tivéssemos dirigido a mesma pergunta a um judeu piedoso do tempo do profeta Isaías, ele teria sido ainda mais explícito: «Os outros são mortos que não vivem, sombras que não voltam a levantar-se... apagaste toda a sua memória» (Is 26, 14).
Idêntica a resposta de Job: «O homem é como uma flor que desabrocha e murcha, uma sombra que foge sem parar. Porque para a árvore há uma esperança: cortada, pode ainda reverdecer e deitar novos rebentos. Se a sua raiz tiver envelhecido na terra, e o seu tronco estiver morto no solo, ao contacto com a água, reverdecerá e deitará ramos como uma planta nova. Mas o homem, ao morrer, acaba. O mortal expira e onde está ele? As águas poderão desaparecer do mar e um rio, esgotar-se e secar. Mas o homem que morre nunca mais se levanta; enquanto durarem os céus não despertará, nem sairá do sono» (Jb 14, 1.7-13).
Só muito tarde, no século II a.C., se começou a falar em Israel de um acordar daqueles que dormem no pó da terra (cf. Dn 12, 2). É precisamente neste tempo que deve ser colocado o episódio narrado na leitura de hoje.
O ímpio Antíoco Epifânio queria obrigar os Israelitas a abandonar a fé e a prática religiosa dos seus pais. Para atingir os seus objectivos não hesitava em recorrer à perseguição e à tortura. Um dia quis obrigar uma mãe e os seus sete filhos a violarem a lei comendo carne de porco (vv. 1-2).
O trecho de hoje refere as respostas corajosas dadas ao rei pelos primeiros quatro irmãos: são uma profissão de fé na ressurreição dos mortos. Nunca no Antigo Testamento tinham sido feitas afirmações tão claras desta verdade.
Os setes irmãos declaram-se prontos a renunciar a esta vida porque estão certos de que Deus lhes dará outra (vv. 9.11.14).
Deve-se, porém, notar que a fé deles na existência doutra vida não é igual à nossa fé na ressurreição. Eles estavam convencidos de que os justos receberiam de Deus uma vida semelhante àquela que – por causa da sua fidelidade à lei – lhes era tirada.
Não esperavam que, com a morte, fossem introduzidos numa condição completamente nova.
Segunda leitura
Entre os cristãos de Tessalónica, havia uma certa tensão e algumas ideias teológicas pouco correctas, havia também algum fanatismo, mas, no seu conjunto, a vida daquela comunidade era bastante satisfatória.
Na primeira parte da leitura (2Ts 2, 16-17), Paulo pede ao Senhor que confirme os corações de todos nesta boa disposição.
Na segunda parte (2Ts 3, 1-5), convida os Tessalonicenses a rezar para que a Palavra de Deus, que já produziu muitas transformações no meio deles, se propague e seja conhecida por toda a gente. Pede que rezem também por ele, porque são muitas as dificuldades que tem de enfrentar, são muitas as pessoas que o odeiam e que procuram destruir o que ele constrói.
Evangelho
Os sete irmãos de quem nos falou a primeira leitura tinham uma concepção da ressurreição ainda muito imperfeita: imaginavam-na como um prolongamento da vida deste mundo, nada mais.
Acerca deste tema, também no tempo de Jesus as ideias não eram muito diferentes.
Os fariseus, que professavam firmemente a fé na ressurreição dos mortos, continuavam a interpretá-la de um modo bastante grosseiro.
Na vida futura – diziam – as alegrias desta vida serão aumentadas desmedidamente. No céu não haverá fome, doenças, sofrimentos, desgraças; as pessoas gozarão de todos os prazeres, terão pão, carne e vinho em abundância.
O Evangelho de hoje introduz um novo grupo político-religioso do qual até agora não se tinha falado no Evangelho de Lucas, os saduceus. Deles sabemos que constituíam a classe dos ricos, que colaboravam com o governo romano, que não gozavam de boa consideração por parte do povo e que, do ponto de vista religioso, eram conservadores. Os chefes dos sacerdotes (que serão os principais responsáveis pela morte de Jesus) pertenciam todos a esta seita.
Um dos temas teológicos que os punha em contraste com os fariseus era o da fé na ressurreição dos mortos. Enquanto os fariseus a afirmavam, os saduceus defendiam que na Torah (os únicos livros da Bíblia que reconheciam como sagrados) não há nenhuma referência a este assunto, pelo que se declaravam cépticos. De resto, com o dinheiro de que dispunham, podiam gozar o Paraíso neste mundo e não experimentavam nenhuma necessidade de sonhar um outro no além.
Fariseus e saduceus defendiam com obstinação as suas teses e procuravam na Bíblia razões para opor aos adversários.
O povo, que admirava os fariseus pela sua piedade e simpatizava com as suas ideias religiosas, partilhava também a sua fé na ressurreição.
Ouvindo Jesus, os saduceus, um dia, dão-se conta de que, acerca deste aspecto, Ele concorda, pelo menos em parte, com os fariseus: acredita na vida eterna, mesmo que dê a impressão de a interpretar de um modo muito original.
Para o convencer a mudar de opinião recorrem a um texto da Torah, montam uma história curiosa (vv. 28-33) e vão contá-la.
A lei de Moisés – dizem eles – estabelece que, se um homem morrer sem deixar descendência, o seu irmão deve casar com a viúva. Os filhos nascidos deste novo matrimónio são considerados filhos do defunto (Dt 25, 5-10). Ora, havia entre nós uma mulher que conseguiu «desgastar», um atrás do outro, sete maridos. Depois também ela acabou. Pois bem, se é de admitir a ressurreição dos mortos, a situação fica complicada: na vida futura, a qual dos irmãos será atribuída?
Não é a primeira vez que os saduceus se servem desta estranha história para embaraçar os seus adversários. Para os fariseus, a objecção é extremamente séria, convencidos como estão de que a vida eterna não é senão o aperfeiçoamento desta. A eles não resta senão baixar os olhos, murmurar alguma explicação e afastar-se rapidamente entre os comentários divertidos dos presentes.
Jesus, que vê a ressurreição de um modo completamente diferente dos fariseus, não se sente de maneira nenhuma tocado pela objecção dos saduceus. Toma a palavra e articula a sua resposta em duas partes.
A primeira: «Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. Na verdade, já não podem morrer, pois são como os anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus» (vv. 34-36).
A objecção dos saduceus rege-se pelo falso pressuposto de que a vida futura é a continuação (melhorada e potencializada) desta vida, e isto não é aceite por Jesus. Ele não prega um despertar do sepulcro para retomar a vida de antes. Uma coisa destas seria ridícula, absurda, cruel da parte de Deus.
Não faria sentido que nos fizesse morrer para depois nos restituir o mesmo corpo, a mesma vida.
A vida com Deus é uma condição completamente nova: quando é introduzido nela, o homem, mesmo mantendo a sua própria identidade, torna-se um ser diferente, imortal, igual aos anjos de Deus.
Como será? Esta é a interrogação à qual é preciso responder com muita cautela, devido ao perigo de projectarmos no além – como faziam os fariseus e os saduceus – aquilo que de positivo experimentamos aqui, multiplicado ao infinito: alegrias, prazeres, satisfações e – afirmavam os rabinos – também o regresso à vida conjugal.
Por detrás de certas afirmações, certas orações, certas interrogações de muitos cristãos de hoje ainda se cela, infelizmente, uma imagem da «ressurreição dos mortos» semelhante à dos fariseus.
A ressurreição de que fala Jesus – a que acomuna o homem aos «anjos de Deus» – é completamente diferente.
Para Jesus, a pessoa vive na terra uma gestação, prepara-se para um novo nascimento, após o qual já não haverá outros, porque o mundo onde vai entrar será definitivo. Nele não haverá nenhuma forma de morte.
Como o feto no ventre da mãe não pode imaginar o mundo que o espera, assim a pessoa não pode imaginar como será a vida com Deus. É um mistério que não foi revelado, não porque o Senhor queira aumentar o suspense e a surpresa, mas simplesmente porque a nossa mente não o pode entender: «O corpo corruptível é um peso para a alma e esta tenda terrena oprime a mente cheia de cuidados. Mal podemos entender o que há sobre a terra e o que está ao nosso alcance dificilmente o descobrimos, quem poderá, pois, penetrar o que há no céu?» (Sb 9, 15-16).
Podemo-nos acostar a estas realidades sublimes e inefáveis apenas pela fé, acreditando que o Senhor preparou para aqueles que o amam coisas que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, o coração do homem não pressentiu (1Cor 2, 9).
Em vez de indagarmos sobre coisas que não podemos entender, é melhor reflectir sobre a certeza que a ressurreição de Cristo oferece: em particular, o facto que não existem duas vidas – a presente e a futura –, mas uma única que continua, de duas formas diferentes.
A morte, percebida como destruição da pessoa, não existe, foi vencida, destruída pela morte e ressurreição de Cristo. Aquilo que nós chamamos morte é simplesmente o abandono da forma de vida – débil, frágil, caduca – que levamos nesta terra para sermos acolhidos no mundo de Deus.
O corpo mortal, que adoece, murcha, envelhece e encaminha-
-se para a dissolução, não é introduzido no mundo definitivo, fica neste mundo: o homem é revestido por outro corpo incorruptível, glorioso, cheio de força, espiritual (1Cor 15, 42-43).
A segunda certeza é a de que a ressurreição de Cristo fez cair todas as barreiras que separavam os vivos dos defuntos. Um laço íntimo e profundo une todos. Quando, na terra, nós, os vivos, nos reunimos à volta do banquete eucarístico, sabemos que estamos em comunhão com os irmãos do céu. Estamos certos de que a nossa memória os torna felizes, aumenta o nosso e o seu amor, reaviva o nosso desejo e a nossa esperança de nos podermos um dia reunir com Cristo e com eles.
Com a nossa oração dizemos às pessoas que nos precederam na casa do Pai que somos felizes que estejam com Deus, não obstante continue viva em nós a dor pelo seu desaparecimento. Dizemo-
-lhes que recordamos apenas o bem que fizeram, os seus gestos de amor, a sua generosidade, a ajuda que deram. Os seus defeitos, erros, fraquezas foram totalmente purificados pelo encontro com o «fogo» do amor de Deus. Nelas não ficou nenhuma forma de mal ou de morte.
A segunda parte da resposta de Jesus (vv. 37-38) é constituída por uma afirmação clara da verdade da ressurreição.
Não podemos imaginar como será a vida com Deus, mas a fé dá-
-nos a certeza de que, depois da morte, o homem continua a viver.
A prova que Jesus dá para convencer os saduceus é a seguinte: o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob, não é um Deus dos mortos, mas dos vivos, porque para Ele todos estão vivos. O que quer dizer?
Ele evoca a autoridade da Sagrada Escritura. Diz que Moisés, que viveu muitos séculos depois da morte dos patriarcas, chama ao Senhor: «O Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob.» Isto significa que eles estão vivos, doutra forma Moisés e, depois dele, todos os Israelitas estariam a invocar um Deus dos mortos.
Como se pode imaginar um Deus que cria pessoas, estabelece uma aliança com elas, faz muitas promessas, defende-as dos seus adversários, considera-se seu amigo e depois, um dia, os abandona, deixa que desapareçam no pó, que voltem ao nada? Se Ele se comportasse deste modo seria autor de projectos de morte. Mas Ele – diz Jesus – não é o Deus dos mortos, mas dos vivos, porque dele todos recebem a vida.
Ele é «o amante da vida» (Sb 1, 13). Nada daquilo que tem a ver com a morte pode aproximar-se dele.
Fonte: O Banquete da Palavra, Fernando Armellini, Paulinas Editora.