Re: Perdão
Escrito por:
Ovelha Tresmalhada (IP registado)
Data: 11 11UTC April 11UTC 2006 21:03
Ana,
O perdão assenta que nem uma luva numa personagem como aquela de que eu aqui me sirvo - uma ovelha tresmalhada. Portanto, peço, ovinamente, perdão.
Agora a sério, e a propósito do perdão:
Temos nós, os cristãos, legitimidade para julgar moralmente pessoas como o Hitler, o Pol Pot, o Estaline e tantos outros símbolos do mal absoluto que infligiram à Humanidade tantas atrocidades, tantos horrores, tanto sangue, tanto sofrimento, tanta morte?
Não me refiro, obviamente, aos actos que praticaram, que esses não têm desculpa e não há que vacilar um só instante sobre a sua natureza intrinsecamente preversa, nefasta, maligna e diabólica. Refiro-me à culpabilidade pessoal de cada um deles.
Deveriam as vítimas ter a capacidade de os amar como pessoas criadas, desejadas e amadas por Deus desde toda a eternidade, apesar das suas muitas maldades?
Em suma: há limites para o perdão?
Jesus advertiu-nos: não julgueis e não sereis julgados. Subjacente a qualquer imputação de culpa que eu dirija a uma pessoa há uma postura de julgador - e essa nenhum cristão a deve ter.
Portanto, um cristão não deve recusar aquilo que aos olhos do mundo parece uma rematada loucura: perdoar, perdoar sempre do íntimo do coração, ainda que o nosso "inimigo" seja o pior dos facínoras. Não dar gaurida ao ódio, ao ressentimento, ao desejo de retaliação. Pensar que, no fundo, maus somos todos nós, em maior ou menor escala, e que só a Deus compete julgar em definitivo as acções humanas.
E agora preciso mesmo de uma oração:
Meu Jesus, tu que nos ensinaste o perdão incondicional, dá-me força para desculpar sempre os meus vizinhos do andar de cima quando não me deixam dormir à noite com o barulho que fazem e que me põe os nervos em franja! Ajuda-me a expulsar de mim o rancor, o ódio que me brota no coração quando os vejo indiferentes aos meus insistentes pedidos. Livra-me da tentação de me vingar e de lhes fazer a vida negra do mesmo modo que eles me fazem a mim! Acalma a minha ira, dá-me um milésimo da paciência de que Job foi capaz. Faz de mim uma ovelha cordata, pacífica, capaz de amar, amar sempre, sobretudo aqueles que os meus impulsos primários me levam a detestar...