«Cansados e oprimidos».
Carregados e sobrecarregados de tantos pesos insuportáveis, muitos deles perfeitamente evitáveis! Os Judeus, no tempo de Jesus, para além de todas as dificuldades do normal quotidiano, tinham que conhecer e que cumprir nada menos do que 248 normas e que prestar atenção a não incorrerem na inobservância de 365 proibições da Lei. Que fácil era, por isso, alguém considerar-se ou ser considerado «pecador», mesmo só por não conhecer aquilo a que estava obrigado! Até a religião, mal entendida, pode transformar-se numa carga, ser fonte de medos, levar as pessoas a viverem na obsessão de estarem sempre a perguntar: «posso fazer isto ou aquilo?» ou «isto é, não é, pecado?». Que pena que se apregoe o medo de Deus! Que tristeza que a religiosidade, em vez de nos libertar, possa criar em nós novas angústias e receios! «A letra mata, mas o espírito vivifica» (2 Cor 3, 6). Onde o Espírito, que dá vida e salva? Se, ao menos, quem é tão exigente para os outros, praticasse o que diz e apregoa! Mas, a quantos de nós se pode aplicar a palavra do Evangelho: «ai de vós,… porque carregais os homens com fardos difíceis de levar e nem sequer com um dedo tocais nesses fardos!» (Lc 11, 46).
Todos temos os nossos fardos, objectivos e subjectivos, inevitáveis e escusáveis: doenças, fracassos, incompreensões, mal-entendidos, receios, não saber a que porta humana bater a pedir auxílio ou, simplesmente, a desabafar. Pensemos nisso, e estejamos certos de que nos ajudamos a nós mesmos, indo em auxílio de outros: «o que quereis que os outros vos façam, fazei-o vós a eles» (Mt 7, 12 – é a «regra de ouro»). E Deus? E Jesus Cristo? Como nos podem aliviar?
Deus dos «pequeninos». O «jugo» faz com que sejam mais leves as cargas pesadas. É o seu jugo, aquele que Jesus nos dá. A força, que torna as coisas suportáveis, tem a ver com a mansidão e com a humildade do coração de Jesus Cristo, de Deus, que tem e que é coração. Com a mansidão, aprendemos a não nos revoltarmos contra os nossos fardos, a ter uma atitude de serenidade perante as pessoas e as situações, sejam elas quais forem. A mansidão consegue até que se ame o que faz doer, que se aceite, sem protesto, o que custa. Como Jesus, manso e humilde, que, morrendo, venceu o mundo (Jo 16, 33). É Ele que nos diz: «Pela vossa paciência, salvareis as vossas almas» (Lc 16, 19). Paciência é o mesmo que capacidade de sofrer, sem azedume, sem revolta, confiando.
E a humildade? Consiste em, como Jesus no Jardim das Oliveiras, renunciarmos à nossa própria vontade, e dizermos: «Não como eu quero, mas segundo a tua vontade». Ela faz-nos dar o passo de acreditarmos que, em cada sofrimento, está escondido um sentido mais profundo, que nos purifica, nos fortalece e nos santifica. É o sofrimento que nos faz crescer por dentro. O jugo pode ser incómodo, mas acaba por ser leve, vindo de um Deus amigo, como vem. Sofrer, por amor, não custa, não cansa. |