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Católicos aguardam pela nova era na Igreja
2013-03-12 22:36:05

Primeiro fumo foi negro. Votações para encontrar sucessor de Bento XVI continuam quarta-feira de manhã.

“Deus, concede-nos um Pastor que anuncie o Evangelho e a misericórdiaâ€, pediu o cardeal Angelo Sodano durante a manhã. Ao cair da noite, eram milhares os católicos que enchiam a Praça de S. Pedro na expectativa de conhecer esse pastor: com as suas preces, ditas assim, de mais perto, quiseram unir-se à escolha e sublinhar as orações dos cardeais que têm a responsabilidade de eleger o sucessor de Bento XVI.

À primeira votação seguiu-se o esperado fumo negro. Poucos acreditavam que houvesse fumo branco, que dois terços dos cardeais escolhessem o mesmo homem no primeiro dia de conclave; tantos quiseram ainda assim confirmá-lo.

Nesta quarta-feira, os cardeais voltarão a entrar na Capela Sistina e os fiéis regressarão a S. Pedro. De manhã haverá duas votações, à tarde outras duas. Ratzinger foi escolhido em dois dias — e João Paulo II estava doente há anos. Ratzinger assombrou os católicos com a sua renúncia, a primeira em 600 anos, comunicada há um mês.

Nesta terça-feira, quando o fumo saiu por fim pela chaminé era noite escura: 20h42 e o fumo muito negro e espesso a debandar por entre a chuva, cinco longos minutos de fumo negro. A acompanhá-lo, um enorme “ohhhh†dito a milhares de vozes enquanto chapéus-de-chuva de todas as cores rodopiavam e depois se afastavam em blocos, esvaziando a Praça. “Até amanhã.â€

Há oito anos, foi Ratzinger a presidir à Santa Missa Pro Eligendo Romano Pontifice, acto que inaugura o dia do arranque de cada conclave. Depois, entrou na Capela do Juízo Final de Miguel Ângelo e foi eleito pelos seus pares. Desta vez, o decano do Colégio Cardinalício é Sodano, que por já ter 85 anos não vota nem pode ser eleito. Desta vez, e apesar das regras e dos ritos repetidos, o facto de o decano do Colégio Cardinalício não ter assento no conclave é apenas uma entre tantas diferenças.

“Estive a trabalhar de noite e a seguir vim para aqui. O verdadeiro repouso é fazer a vontade de Deus, rezar e invocar o Espírito Santo para que nos mande o apóstolo, o pastor para estes temposâ€, diz Aldo Ottomanelli, 65 anos, diácono na igreja de Bari, a passar uma temporada em Roma com objectivos claros. Veio lançar uma fundação que ofereça trabalho aos extracomunitários que chegam a Itália e só quer deixar a capital quando o conseguir. Entretanto, virá a S. Pedro todas as manhãs até o novo Papa estar eleito.

“Agora, é tempo de nos prepararmos para acolher Sua Santidade, a vinda de Cristo. O novo pastor chegará para espalhar o amor, a caridade e a humildade. Este novo pastor abrirá a porta da unidade, carregará o sofrimento e a cura. A cura triunfa sempre que a Igreja se renovaâ€, afirma Aldo. O novo Papa, assegura este diácono, “abaterá muitas paredes e construirá outras, e terá a capacidade de falar a todo o mundo, com a mão direita da autoridade e a mão esquerda da humildadeâ€. A renovação da Igreja far-se-á, diz ainda Aldo, através do exemplo e da palavra. “Uma vida simples é uma vida bela.â€

Caridade e unidade
Aldo seguiu a missa de Sodano de olhos postos num dos quatro ecrãs gigantes espalhados pela praça desde a renúncia de Ratzinger. Viu os 115 eleitores e todos os outros cardeais reunidos em oração. Ouviu as palavras de Sodano e rezou com ele, jeans colados ao corpo pela chuva, às vezes em uníssono, noutros momentos sozinho, entregue às suas preces, sempre de pé, encostado às barreiras de madeira que desenham o percurso até à Basílica, numa manhã fechada a turistas.

Como Aldo, que insiste na importância da trindade “nestes tempos difíceis como nenhuns outrosâ€, também Sodano repetiu essencialmente três temas ao longo da homilia de quase duas horas. Caridade, unidade e continuidade, foram as palavras escolhidas pelo cardeal.

Sodano citou a profecia de Isaías em que se anuncia o envio de “um Messias pleno de misericórdia†para levar “o contentamento anunciado aos pobres, limpar as lágrimas dos corações partidos, proclamar a liberdade aos escravos, a libertação aos prisioneirosâ€. Este Messias é Jesus e “é um amor que se faz notar particularmente no contacto com o sofrimento, a injustiça, a pobreza, com todas as fragilidades, físicas e moraisâ€.

Esta missão de misericórdia, disse Sodano, foi entregue por Cristo a todos os pastores da Igreja, “mas compromete ainda mais o bispo de Romaâ€. Depois, citou Bento XVI, o Papa emérito sempre presente, que na sua mensagem da Quaresma explicou que por vezes se limita a “caridade†à “solidariedade†ou à “ajuda humanitáriaâ€, quando a maior obra de caridade “é a evangelizaçãoâ€.

Há oito anos, Ratzinger sublinhou que “sem verdade a caridade seria cegaâ€. Sodano recuperou as suas palavras para dizer que a caridade se concretiza na evangelização e que é ela que define “a missão de misericórdia†que se pede a um Papa.

Agradecendo a Bento XVI — e arrancando com isso um longo aplauso, o cardeal Sodano pediu ainda unidade, antes de mais à própria Igreja, poucos dias depois de Ratzinger ter lamentado as “divisões†que a corroem: “Tenham muita humildade, doçura e paciência, apoiai-vos, uns aos outros, com amorâ€, disse aos prelados, “todos chamados a cooperar com o sucessor de Pedro, o fundamento da unidade da Igrejaâ€. Pediu também continuidade. Com Ratzinger e com “os últimos pontíficesâ€, “artesãos de tantas iniciativas benéficas, promovendo a justiça e a paz a nível mundialâ€.

Aldo concorda com quase tudo o que Sodano escolheu dizer aos cardeais, no seu último acto público antes da entrada em conclave. Mas vê no gesto do Papa alemão um acto de ruptura, “humilde e generosoâ€, e não espera continuidade. “Se Jesus estivesse aqui hoje no meio dos cardeais, seria uma criança que os olharia nos olhos. Sem a inocência de uma criança é impossível ver a verdade. Hoje, o mundo está entregue ao sentimentalismo e para o superar temos de invocar o Espírito Santo. Ele é que é o operário humilde que constrói as grandes obras à glória de Deus, ele, e não os cardeais, os bispos e os monsenhoresâ€, diz Aldo. Amor, caridade e humildade, repete. E só a simplicidade os torna possíveis. Aldo quer reformas mas quer, mais ainda, um regresso às origens, à Igreja dos homens perante os homens, dos homens entre os homens.

Uma nova era
Nas palavras de Juan Arias, jornalista e filólogo que acompanhou João Paulo II nas suas viagens pelo mundo, o que a renúncia de Ratzinger anuncia é que “não estamos perante mais uma das crises que a Igreja enfrentou na sua história, mas perante algo inédito: uma encruzilhada que leva a pensar no fim do papado se este não se reformaâ€.

Fazem falta reformas, sim, escreveu Arias no jornal espanhol El País, mas estas não podem ser como tantas outras, simples “cosméticaâ€. “A Igreja não precisa das reformas do passado, de mudanças para continuar igual.†Agora, diz Arias, seria preciso “um Papa profeta, capaz de inaugurar uma nova eraâ€, um “revolucionário†que entenda que a revolução passa só pelo regresso às origens, implica apenas um passo atrás, como o de Bento XVI — um passo simples mesmo que enorme.

“Ser profeta no Vaticano, tentar de alguma forma recuperar a tradição evangélica, despojar o bispo de Roma dos seus poderes temporais, uma tarefa que até agora pareceu impossível.†O espanhol não sabe se Ratzinger tentou levá-la a cabo: “Pode ter intuído que um gesto profético poderia custar a vida.†E ainda assim, “o grande paradoxo é que a sua renúncia talvez tenha constituído um dos gestos mais proféticos dos últimos papas, capaz de obrigar a Igreja a rever-se dos pés à cabeçaâ€.

Arias também não sabe se há entre os 115 cardeais “um Papa profetaâ€, mas escreve que a eleição de um Papa assim nunca será rápida porque nenhum dos nomes mais referidos, do italiano Angelo Scola ao brasileiro Odilo Scherer, tem esse perfil. E por agora só houve fumo negro no Vaticano.


Fonte Público

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