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Media devem ter função social
2007-05-16 23:11:30

“As Crianças e os Meios de Comunicação Social” é o tema da Mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que se assinala no Próximo Domingo. Em entrevista à Agência ECCLESIA, D. Manuel Clemente, Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, comenta a mensagem do Papa.

Agência ECCLESIA (AE) - Qual a oportunidade da Mensagem do Papa, centrando-se nas crianças e os media?

D. Manuel Clemente (MC) - Esta mensagem é extremamente oportuna. Como o próprio título indica - "As crianças e os Meios de Comunicação Social: um desafio para a educação" - é nestes termos que a questão se põe. Não é apenas um meio externo à pessoa - que se possa ou não usar - mas ela influencia, positiva ou negativamente, o projecto educativo.

Muitas vezes, corre a ideia que a educação é, sobretudo, uma apresentação das imagens, sugestões ou temas e, depois, a pessoa escolhe o que entende. Realmente não é assim. A educação nunca é um aspecto vazio ou neutro. Ela vai ao encontro do receptor e do seu desenvolvimento. Pode influir positiva ou negativamente. A grande responsabilidade dos Meios de Comunicação Social reside nesta questão. Hoje, o processo educativo extravasa completamente o âmbito familiar ou escolar. A informática tem uma presença muito grande na vida das pessoas e, concretamente, nas mais novas.


AE - Quando os Meios de Comunicação Social têm apenas a lógica do lucro, as influências são mais negativas do que positivas?

MC - Exactamente. Bento XVI diz, na mensagem, com muita clareza e acuidade que "as pessoas que trabalham neste campo enfrentam pressões psicológicas e dilemas éticos particulares" que, por vezes, vêem a concorrência comercial impelir os comunicadores para níveis mais baixos. Nem sempre o que é mais positivo - geralmente é o que acontece - é o mais imediato. Requer uma elaboração e um trabalho de aprendizagem. Esta questão transporta a problemática da verdade e liberdade porque são coisas que se educam e crescem com as boas sugestões. As boas sugestões são realidades verdadeiramente humanizadoras.

Se a Comunicação Social visa apenas prender a atenção do imediato pode, como se diz vulgarmente, puxar para baixo.


AE - Aos pais compete inverter o rumo dos acontecimentos. Saber educar e seleccionar as leituras e os programas televisivos.

MC - É verdade, mas se os pais não tiverem uma colaboração mínima ou suficiente da parte da Comunicação Social têm a vida muito dificultada. Sabemos que, nem sempre, os pais estão por perto. As crianças e os adolescentes passam muito tempo sós a verem televisão. A família tem um papel muito grande - no diálogo e na integração -, mas se a Comunicação Social não está interessada em ser social os pais têm uma tarefa árdua.


AE - A solidão das crianças é nefasta em vários sentidos. Basta recordarmos os acontecimentos da Praia da Luz com o desaparecimento da criança inglesa.

MC - Foi uma contingência, mas o problema é maior. Diariamente - sabemos isso pelas estatísticas - é muito o tempo que as crianças e os adolescentes passam diante do aparelho de televisão, vídeo ou computador. A tentação é muito forte. Os agentes da Comunicação Social apostam no imediato porque este prende mais a atenção.


AE - O tempo escasseia para o trabalho e para a família....

MC - Os pais têm de ser hábeis e engenhosos. Podem desafiar os filhos a relatar o que viram ou indicar-lhes os programas mais úteis. As instâncias de sociabilidade devem ganhar a dimensão educa-tiva porque é a pessoa que está em causa.


AE - No caso da criança desaparecida no Algarve, acha que a Comunicação Social está a prestar um bom serviço?

MC - Informar é o serviço da Comunicação Social. Infelizmente não é um caso só porque coisas destas podem sempre acontecer. Prevenir as famílias também é bom. Tudo o que vai para além do informar e deter-se no caso, como se fosse a única coisa e realidade existente, pode afunilar a atenção e fazer disto um caso policial, não de entretenimento mas de ocupação do tempo. Quando se insiste muito e quando se transforma a notícia num argumento, não de espectáculo mas que prende a atenção com cenas dos próximos capítulos, pode criar um certo distanciamento.

O tema, quando é demasiadamente versado e apresentado de modo dramático pode alhear o espectador. Nestas questões é fundamental o meio termo. Não se deve transformar num espectáculo como muitos outros.


AE - As manchetes dos jornais e a abertura dos telejornais sobre este caso é um alerta educativo?

MC - Este é o papel positivo da Comunicação Social. O que se deve evitar são os argumentos cinematográficos e não transformar os casos em novelas.


AE - Perante as suas afirmações podemos dizer então que os desafios dos Meios de Comunicação Social são enormes?

MC - São imensos porque a Comunicação Social tem um lugar enorme na vida das pessoas.


AE - Ainda é o quarto poder ou já está no pódio?

MC - Ela está em todos os poderes. Tudo o que se passa nos poderes clássicos transformou-se em Comunicação Social. É uma nova dimensão dos poderes.


AE - Com todo este poder deve estar atenta também às mutações culturais?

MC - É uma mutação cultural que ela própria induz. Ela própria é um factor dessa mutação porque vivemos todos em rede.


AE - Nesta rede, ela poderá desempenhar um papel positivo?

MC - Uma educação é sempre uma elaboração. Não podemos pensar que os outros são uma página em branco. A Comunicação Social pode apresentar "bons exemplos de humanidade" e, aí, estimular as capacidades do outro.


AE - Como é que estes alertas de Bento XVI na Mensagem para o Dia das Comunicações Sociais poderá chegar aos meios de comunicação social laicos?

MC - Todos os meios de Comunicação Social têm pessoas atentas a uma humanidade que nos é comum. Segundo a óptica do Evangelho, é preciso lançar a semente à terra e, depois veremos onde ela foi cair.

Fonte Ecclesia

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