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Re: Uma pertença sofrida: católico, cristão, "apesar de"...
Escrito por: camilo (IP registado)
Data: 05 de March de 2009 09:02

O que é amar?
Se Deus nos ama porque não se revela? Cristo quis os seus seguidores fossem uma comunidade. Amar o proximo implicar compreende-lo, compreender as suas limitações, a sua cultura especifica. senão são apenas palavras vazias.
Uma fé sem regras e sem dogmas é muito sedutora, mas muito falsa. É o caminho largo, mas estreito é o caminho que leva à salvação.

Se todas as religiões são iguais, se Deus não se revela, não é um Deus distante?

Re: Uma pertença sofrida: católico, cristão, "apesar de"...
Escrito por: paroled'amore (IP registado)
Data: 23 de March de 2009 23:16

Citação:
Alef

- Outros, ainda, porque acham que a Igreja já «perdeu o comboio» e só se salvará com um «Vaticano III», que desclericalize e democratize a Igreja, seja mais «compreensiva» em termos de moral sexual e familiar, torne o celibato apenas opcional, permita a ordenação das mulheres, admita os «recasados» à comunhão…


JESUS é o principio e o fim, pensamentos de se atualizar são mundanos, de pessoas que acham as leis de DEUS dificeis, querem mais liberdade, poder fazer de tudo, isso não é divino é humano.
eu vou a igreja por CRISTO não por um sacerdote, não por rico milionario que me fala que la vou ficar rico, sendo que, a maior riqueza é aquela de ser escutado por JESUS, não busco aparencias na igreja, não quero me aparecer, ao contrario, quero desaparecer e ser visto por CRISTO.
um dos maiores motivos que fazem com que os católicos fiquem bravos são:
as missas acham paradas, pois la nao tem teatro de exorcismo, não tem ninguem ordenando a CRISTO, "SENHOR cura este homem, em nome do SENHOR cura este homem" ridiculo, perderam senso do ridiculo querer mandar em CRISTO, ordena-LO fazer algo, deveriam se olhar e verem o quanto são imundos perante CRISTO e pedirem perdão, não querer ordenar.o homem é pecador e deve lembrar disso sempre.
outra coisa que me irrita nos cristãos é a falta de dedicação, reclamam mas nada fazem,descem a boca ou no padre, ou no pastor etc.., muito querem ouvir só o que agrada, buscam um lugar para serem comprimentados e aclamados.
lembremos que ser cristão é algo maior, muito maior.
isso é o que penso, não quero polemicas aqui, so estou escrevendo num post otimo e muito bem pensado.

fiquem com DEUS

se DIO è per noi,chi sara contro noi



Editado 1 vezes. Última edição em 23/03/2009 23:19 por paroled'amore.

Re: Uma pertença sofrida: católico, cristão, "apesar de"...
Escrito por: Desconhecido (IP registado)
Data: 24 de May de 2009 20:48

Vi apenas agora com atenção este post.
Bom trabalho

Tive uma educação católica, mas as duvidas foram surgindo...
Decidi abandonar tudo, e construir tudo de novo, do inicio.

Hoje sou apenas cristão, pois acredito na mensagem de Jesus. Tenho a minha maneira de ver as coisas que não se enquadram no catolicismo.

Penso que, qualquer que sejam as nossas crenças, o que interessa que melhoremos, que nos dêem ânimo para o fazer, sem cair na apatia.
Há tanto a aprender nesta vida... há que saber aproveitar!

Cumps a todos

Re: Uma pertença sofrida: católico, cristão, "apesar de"...
Escrito por: Luis Gonzaga (IP registado)
Data: 15 de June de 2009 01:46

Durante mais de um ano, não houve uma semana que não reparasse neste tópico, e tivesse vontade de participar. Não o fiz, não por ter medo ou vergonha de dizer o que penso, mas, porque sou o responsável por este projecto. Aquilo que eu penso, pode ser (sê-lo-á certamente) conotado com a orientação do próprio projecto.

Porém, por uma questão de integridade e honestidade para com todos, acho que chegou o momento de dar a minha opinião. Quero que isso sirva, também, para que outros tenham, cada vez mais, vontade de partilhar o que lhes vai na alma, em vez de defender, apenas, as suas convicções.

Há já vários anos que escrevo neste fórum e sempre fui escrevendo o que sinto, pelo que este resumo que agora faço, não será grande novidade, sobretudo para quem acompanha o fórum desde o início.

Sou cristão porque fui criado e educado na Igreja Católica e esta é a minha casa. É isso que sinto sempre que entro numa Igreja: sinto como se tivesse chegado a casa. É a casa de Deus mas é como se fosse também a minha casa. Isto acontece-me independentemente da igreja, da paróquia, ou até quando estou noutro país. Curioso que também quando entrei numa igreja da Reforma e numa igreja Ortodoxa, senti como se estivesse em casa, e, por isso, gosto de chamar os outros cristãos de irmãos.

Sou cristão porque acredito em Deus. Acredito em Deus de Jesus Cristo, como diz Walter Kasper. Acredito no Espírito Santo e na Santíssima Trindade.

Sou católico porque sou cristão e cresci na Igreja Católica. As diferenças entre católicos, ortodoxos e outros cristãos raramente são doutrinais: prendem-se com detalhes, que, infelizmente, tendemos a dar demasiada importância.

Sou católico, apesar de …

1) não concordar com o Marianismo que invade a Igreja Católica. Sempre reconheci que Maria tem um papel importante no Cristianismo mas isso não justifica os excessos que, na minha opinião, existem na Igreja. Dou exemplos: ainda no mês passado fui à Igreja das Oficinas de S. José em Campo de Ourique, Lisboa (também conhecida como a Igreja dos Salesianos), e vi que é mais uma das igrejas de "três Marias". "Três Marias" é um nome carinhoso que dou àquilo que acho incompreensível: haver três estátuas de Maria na mesma igreja. Neste caso, uma de N. Sra. Auxiliadora por cima do sacrário, outra na zona do altar em cima de um andor, e N. Sra. de Fátima num altar do lado direito.

Foi numa outra igreja que costumava ir que nasceu esse nome das "três Marias". A Igreja de Monte Abraão em Queluz é também uma igreja de "três Marias". A igreja é dedicada a N. Sra. da Fé, logo, tem uma estátua de Maria como N. Sra. da Fé. Como se uma não bastasse, há mais uma (acho) do Imaculado Coração de Maria e, mais recentemente, uma de N. Sra. de Fátima.

Há já algum tempo atrás, participava numa missa quando o padre deu indicação para se retirar um crucifixo que tinha entrado com a procissão, pois só deveria (podia) haver um crucifixo na igreja (desconheço a regra), mas nestas igrejas existem três imagens de Maria e parece que ninguém (além de mim) se importa com isso.

Para além do número, há também o lugar: como é possível colocar-se uma estátua de Maria em cima do sacrário? Não deveria ser o sacrário o local mais sagrado de uma igreja, e, como tal, não se deveria colocar nada em cima dele, como que de se mero apoio se tratasse? Além disso, na Igreja dos Salesianos, a estátua é de tal forma grande e colocada ao centro, por cima do sacrário, que esconde o grande crucifixo que está atrás do altar, como que esquecendo o que é central na nossa fé. No fundo, este meu "apesar de" é que, com todas estas acções e atitudes, dá a sensação que o centro é Maria (quando não é), ou que é preciso passar por Maria para chegar a Jesus Cristo (quando também não é).

Lembro-me ainda de outra igreja que pela primeira vez senti "esta não é a minha fé". Trata-se da igreja do movimento de Schoenstatt, em Belém, Lisboa. Mais uma vez, o que aparece em lugar de destaque é Maria, aparecendo acima de tudo no altar: sacrário e crucifixo. No pólo oposto, parece encontrar-se a nova Igreja da Santíssima Trindade em Fátima, que ainda não tive oportunidade de visitar, mas, pelas fotografias que tenho visto, mesmo num santuário mariano, não se esqueceram qual é o centro da nossa fé: Jesus Cristo.

Este exagero mariano não se restringe a utilização de estátuas nas igrejas. Por exemplo, porque João Paulo II criou o ano do Rosário e não se criou primeiro o ano Bíblico ? Não será a Sagrada Escritura mais importante, mais central e mais menosprezada pelos católicos que a oração do Rosário? Lamento o destaque que a Igreja dá ao Rosário esquecendo quase por completo outros meios de oração, por exemplo, a Liturgia das Horas ou a Lectio Divina - estas com uma forte componente da Palavra de Deus.

Há ainda as consagrações a Maria que já pedi a várias pessoas para me explicarem e continuo sem as perceber. Sendo Maria criatura e não Deus, como é nos podemos con-sagrar (tornar sagrados com) a alguém que não é Deus? Consagra-se uma cidade, consagra-se um país, consagra-se toda a humanidade… Pergunto, novamente, que lugar reservamos para o Espírito Santo? Não será o Espírito Santo, a presença de Deus no meio de nós, o único (juntamente com a Santíssima Trindade) que nos levará à santidade? Ou será que, mais uma vez, confundimos esta presença de Deus com Maria?

Este destaque mariano, na minha opinião, exagerado, levanta outras questões importantes: o Espírito Santo como terceira pessoa da Santíssima Trindade, o papel da mulher na Igreja e Maria Madalena.

Se o centro da nossa fé é Jesus Cristo e a Santíssima Trindade, é assustadora a forma que a larga maioria dos católicos esquece por completo o Espírito Santo da sua devoção. Fico a pensar que, para muitos, Maria faz parte da Santíssima Trindade, tal é a forma que a adoram, como lhe dedicam quase todas as suas orações e devoções.

2) O papel da mulher na Igreja. Lendo os Evangelhos, vimos que há duas mulheres que se destacam das restantes: Maria, mãe de Jesus e Maria Madalena. Se excluirmos os relatos do nascimento de Jesus, Maria Madalena é a mulher mais referida nos Evangelhos (o evangelista S. João nunca se refere à mãe de Jesus pelo seu nome). É Maria Madalena a primeira testemunha do ponto central da nossa fé - ressurreição. É a Maria Madalena que Jesus Cristo aparece em primeiro lugar após a ressurreição e lhe pede que vá anunciar aos apóstolos. Jesus Cristo faz assim Maria Madalena a apóstola dos apóstolos, de anunciar aos apóstolos a Boa Nova mais importante da Fé Cristã: Jesus Cristo ressuscitou!

A pergunto que faço há muito tempo é porque é que ao longo da Tradição, nunca se valorizou o facto de Jesus Cristo ter escolhido Maria Madalena para ser a primeira testemunha da sua ressurreição e, porque é que a Tradição, erradamente, associou Maria Madalena à mulher adúltera. A única resposta que encontrei até hoje é que, entre estes dois exemplos de mulher e da forma de estar em Igreja, Maria, mãe de Jesus, era o exemplo a seguir: silenciosa, virgem e submissa. Esquecemo-nos que Maria ocupa o lugar que ocupa na Igreja, não por ser virgem, mas por ser mãe.

Embora todos os estudos bíblicos concluam que Maria Madalena não era a mulher adúltera, sempre foi conotada como tal. Os Actos dos Apóstolos apenas referem que Maria, mãe de Jesus, entre outras mulheres, estavam com os Onze no dia de Pentecostes, mas a Tradição sempre a colocou no centro dos apóstolos, em lugar de destaque.

Mais do que querer que as mulheres possam ser ordenadas sacerdotes, choca-me a discriminação de que são alvo, sobretudo, porque não há justificação teológica e doutrinal, apenas aspectos culturais, sociais e psicológicos. Como não havia justificação e já referi isso neste fórum, então João Paulo II cria na Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis a justificação doutrinal que não existia. Agora já existe. Não foi num concílio, não foi numa encíclica, mas tão só uma carta apostólica que um Papa retira a liberdade a qualquer outro futuro sucessor de Pedro: "declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja"!

Mais uma vez, refere-se a escolha dos apóstolos todos homens e ignora-se por completo a aparição de Cristo Ressuscitado a Maria Madalena, e a missão que lhe foi encarregue: "...vai ter com os meus irmãos e diz-lhes […]Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: «Vi o Senhor!» E contou o que Ele lhe tinha dito. " Jo 20, 17-18.

Na Igreja Anglicana há mais de 10 anos que são ordenadas mulheres no sacerdócio, em Portugal, aconteceu em 1993 a primeira vez. Em muitos países, a maioria dos católicos são a favor da ordenação das mulheres: Alemanha (71%), Espanha (71%), Irlanda (67%), EUA (65%), Itália (58%), Portugal (71%) (estudos realizados em 1997 e 1998).

Isto leva-me a outro "apesar de" a incapacidade da hierarquia da Igreja em ouvir o Povo de Deus.

3) A Humanae Vitae, a contracepção e atitude da Igreja perante a sexualidade. Como escrevia há tempos um jornalista espanhol, Deus lamentava-se dizendo: "Os bispos ainda não me perdoaram de Eu ter criado o sexo." Ao que um padre seu conterrâneo posteriormente acrescentou: "O sexo é tão importante na vida das pessoas, que mais cedo ou mais tarde, a Igreja terá de levá-lo a sério".

Não compreendo a Humanae Vitae. Não compreendo como foi possível organizar duas comissões que incluíram leigos, bispos e cardeais para se discutir o assunto da contracepção, que ambas as comissões tenham concluído que não havia "nada intrinsecamente mau" na contracepção, e, que mesmo assim, Paulo VI tenha escrito a Humanae Vitae. Como se isso não fosse suficiente, nos 40 anos seguintes, depois da Humanae Vitae ter sido claramente rejeitada pela maioria dos bispos, se continue a insistir no erro.

Noutro dia desafiei um padre meu amigo a citar-me um versículo bíblico que sustente a contracepção e, se ele não encontrasse um, satisfazia-me com meio versículo. Continuo à espera da resposta.

Se por um lado a Humanae Vitae não me preocupa, serão menos de 1 ou 2% dos casais católicos que a segue à risca, tem servido para milhares de pessoas se afastarem da Igreja e outras tantas não se aproximarem. Entristece-me profundamente pensar nos milhares de casais que todos os anos se dirigem à Igreja para se casar, que lhes peçam (obriguem) a frequentar o CPM e, quando este momento poderia ser uma excelente ocasião para o casal recomeçar uma nova vivência cristã, eis que aparece aquela fatídica sessão número cinco, em que se fala da sexualidade do casal, e dos métodos ditos naturais. É ver a cara de enfadonho dos noivos, saber que quase todos eles já iniciaram a sua vida sexual, e ridícula a ginástica dos casais de apoio a engasgarem-se, corarem, quando também eles não os utilizam, mas não podem aberta e honestamente assumir que não.

Queixamo-nos que as pessoas não vão à igreja, mas, quando vão, recebemo-las desta maneira. Estranhamos que tão cedo não voltem lá.

Cria-se um sentimento de desajuste e distância da hierarquia da Igreja ao sentir do Povo de Deus. Mais tarde e para outros temas, a Igreja é tida como desajustada da realidade e não é ouvida. Diga-se que muito é por culpa própria. E isto leva-me ao próximo "apesar de ".

4) A pastoral do medo e regra do "Não". Durante muito tempo imperou na Igreja aquilo que chamo da pastoral do medo: convertei-vos ou ides para o inferno, vinde à missa ou ides para o inferno, pagai a côngrua ou não vos administro os sacramentos e ides para o inferno, porta-te bem ou Deus castiga-te, rezem o terço todas as noites ou serão queimados no inferno, etc., etc. Ainda no mês passado, na missa da primeira comunhão da filha de uns amigos meus, a certa altura o padre dizia: "se não vierdes todas as semanas comer este pão, ficais com fome, e o que acontece quem passa fome? Morre."

Quanto à regra do "Não", mesmo que dos dez Mandamentos, a grande maioria começa por "não", temos de, cada vez mais, mostrar que o Cristianismo é muito mais que uma lista de regras que temos de cumprir e de coisas que não podemos fazer. Muitas vezes, a mensagem que passa é apenas essa: não ao aborto, não ao preservativo, não à contracepção, não ao divórcio, não ao casamento de divorciados, não à ordenação de mulheres, não à ordenação de padres casados, não, não e mais nãos… Vê-se a adesão à Igreja como algo castrador, quando, na verdade, foi para a liberdade que somos chamados (Gl 5).

Ainda sobre a pastoral do medo, lembro-me de quando era miúdo, devia ter uns sete ou oito anos, uma tinha minha, muito devota de Fátima, me ter oferecido um livro sobre as aparições e a mensagem de Fátima. Lembro-me como se fosse hoje, do medo que senti ao ver as imagens das pessoas queimadas, a arder em chamas no (suposto) inferno. Lembro-me ainda de algumas profecias que circulavam entre os mais velhos, sobre como iria ser o "fim do mundo", afinal de contas "aos mil chegarás mas dos dois mil não passarás".
Que raio de deus é este que queima as pessoas que se portam mal, que termina a sua maior criação (o ser humano criado à sua imagem) simplesmente porque estes nem sempre fazem a sua vontade?

De um sentimento de medo (por vezes até pânico), passei a um sentimento de revolta. De revolta a procura. De procura a encontro e de encontro a amor. Porque é isso que Deus me convida: não a ter medo dele, mas a amá-lo. Deus não é senão Amor. Como medo e amor estão em pólos opostos, aonde há medo, não há Deus, porque Deus não é senão amor.

Surpreende-me (e revolta-me) ainda existir hoje muita pastoral do medo. Não deveria a evangelização ser sempre este anúncio constante de que Deus é amor, Deus não é senão amor? Uma evangelização que nos convida à relação de amor com Deus, através da oração. Não deveria a evangelização ser este convite e crescimento na oração, nas diversas e diferentes formas de oração, na escuta e vivência da Palavra de Deus? Se assim é, porque raramente vimos isto?

Ousamos fazer um congresso da nova evangelização e o ponto alto é uma procissão das velas, com a estátua de N. Sra de Fátima, e a consagração da cidade a Maria. Pergunto, o que é que isto tem de novo?
Assinalam-se os cinquenta anos do Cristo Rei em Lisboa e mais uma procissão com a estátua de N. Sra. de Fátima...

Lembro que as aparições de Fátima não são dogma de fé, isto é, é possível ser católico sem acreditar nas aparições. Se há muitos católicos devotos de Fátima, há também muitos que não se identificam com Fátima, e para quem a mensagem de Fátima não os aproxima da Igreja, pelo contrário. A imagem que muitas pessoas têm de Fátima são as pessoas de joelhos à volta da capelinha, a pagar promessas. Não faço juízos de valor das pessoas que fazem essas promessas, apenas digo que há muitas pessoas que não se identificam com essa forma de se relacionarem com Deus.

Isto leva-me ao próximo "apesar de".

5) Igreja Católica Romana por vezes pouco católica (universal) e muito romana. Vivemos numa Igreja católica (que significa universal) mas por vezes demasiado romana. Não compreendo como é que dos 186 cardeais da Igreja Católica, 39 são italianos. Como é que a Itália com 60 milhões de habitantes (mesmo que sejam todos católicos) tem mais cardeais que toda a América Latina (Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Bolívia, Peru e Venezuela) e Ásia (Índia, Filipinas, Hong Kong, Indonésia, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Tailândia e Vietname) juntas. (Fonte: GCatholic.com).
Se o Brasil é reconhecido como o país no mundo com mais católicos porque só tem um quinto dos cardeais de Itália?

João Paulo II reconheceu que a Igreja respira a dois pulmões: o Ocidente e o Oriente. Temos então de redescobrir o Oriente porque, se calhar, não é só a Igreja que respira a dois pulmões. Também nós, crentes, temos dois pulmões e podemos enriquecer o nosso caminho até Ele, como elementos do Ocidente (que já conhecemos) e do Oriente (que começamos a conhecer).

Corremos assim o risco de perder umas das nossas maiores riquezas, a diversidade. É isso que faz de nós católicos. Se não seríamos apenas romanos.

Porque somos católicos não compreendo a insistência no latim (ou talvez compreendo, mas não concordo). Porque se somos católicos, o que é que o latim tem a ver com África ou com Ásia? Terão eles que aprender latim para serem católicos? Se há alguma língua obrigatória, então que se escolha uma que nos permita ler a Sagrada Escritura sem tradução: hebraico, aramaico ou grego (na prática seria sempre necessária tradução porque o grego bíblico é um grego antigo, muito diferente do grego moderno dos nossos dias).

Não me agrada a influência que certos grupos e movimentos da Igreja vão tendo junto do Vaticano. Não me agrada a forma como certos santos são canonizados, com muita influência e muito dinheiro. Como me dizia um amigo meu por ocasião da canonização do S. Nuno de Álvares Pereira "há os santos impostos pelo povo e os criados pelo Vaticano...". Sobretudo, quando nestes grupos e movimentos não abunda a liberdade e sentido crítico, mas sim o fanatismo e o fundamentalismo religioso. E, também, porque se tratam de grupos e movimentos recentes, afastando-se aqueles que ao longo de séculos mostraram e mostram os seus frutos, quer na acção, quer na espiritualidade.

Se lermos os Evangelhos com atenção, vemos que Jesus perdoou a mulher adúltera, almoçou em casa do cobrador de impostos, curou cegos e leprosos, mas aos únicos a quem chamou "raça de víboras" foi aos fariseus e saduceus (ver Mt 3, 7 e notas).

Isto leva-me ao próximo "apesar de".

6) A insuficiente formação e espiritualidade de alguns sacerdotes. Por vezes, mais do que as que gostaria, ao ver os afazeres de certos padres, lembro-me da história de Marta e Maria. Bem sei que há poucos padres. Bem sei que muitos têm uma vida atarefada com muitos serviços. Mas, onde fica o tempo para estar? Onde fica o tempo para estar, também, com aqueles que fazem parte da comunidade?

Eu vejo um padre como o responsável espiritual de uma comunidade. Para além de administrar sacramentos - Eucaristia e Penitência e Reconciliação - vejo-os com tempo para ouvir e escutar a sua comunidade. Só assim conseguirá orientá-la. Com tempo. Vejo-os a dinamizarem grupos e encontros de oração. A serem dinamizadores de grupos bíblicos. A acompanharem catequistas e catequizandos.
A Igreja queixa-se que há cada vez mais divórcios, mas, esteve algum padre disponível para este casal quando as dificuldades surgiram no casamento? (Não, não estou a dizer que os padres são os responsáveis pelos divórcios que acontecem em número crescente.)

Não compreendo também se Jesus enviou os apóstolos dois a dois, como é que pedimos que os padres sejam celibatários e vivam muitas vezes sozinhos numa igreja.

Se por vezes não os vimos mais dinâmicos em certas áreas da oração e formação, pergunto se não será por insuficiente formação ou espiritualidade.

Se a visão que tenho do sacerdote é ser o responsável espiritual de uma comunidade, aquilo que gostaria é que ele seja bom nisso. Não me interessa se ele é solteiro ou casado. Não me interessa se ele é homem ou mulher. Apenas que seja bom naquilo que faz. Neste aspecto, a Igreja pode melhorar muito.

Recentemente, um amigo meu viu-se impossibilitado de prosseguir o seu caminho de diaconado permanente porque uma pessoa anónima fez chegar uma carta ao Cardeal Patriarca de Lisboa, onde exprimiu a sua opinião que este meu amigo não seria um bom diácono. De todas as pessoas que comigo cresceram nessa comunidade, é unânime que ele daria um óptimo diácono. Na minha opinião, até um bom sacerdote, melhor que alguns que conheço. O mais triste deste episódio, é que ele não teve hipótese de defesa. Não teve hipótese de saber o que dele disseram. Não foi ouvido. Não o quiseram ouvir. E, para a hierarquia da Igreja, não contou as muitas excelentes referências que muitos têm dele, e o exemplo de dedicação e bom homem que tem sido ao longo de muitos anos, de serviço à comunidade. Houve um que tinha uma opinião contrária, e teve primazia sobre todos os outros.

Por último, sou católico apesar de…

7) Acreditar que cristãos, judeus, muçulmanos, budistas, hindus, agnósticos e até muitos ateus terão a vida eterna. Não encontro uma explicação racional para isto, mas é o que acredito há já muito tempo. Estive sete anos na catequese (nesse tempo havia apenas sete anos), mais uns seis ou sete em grupos de jovens. Estudei um ano na Escola de Leigos. Estudei três anos Ciências Religiosas. Já dediquei muitas horas a ler e a estudar, e, ao longo de sete anos, a participação neste fórum permitiu-me e, simultaneamente, obrigou-me a aprender muito sobre a doutrina da Igreja.

Leio Jo 14, 6 em que Jesus diz "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim. " e acredito no que lá está, mas continuo a acreditar que o céu não é um clube de cristãos, muito menos um clube exclusivo de católicos. Recentemente li um pouco sobre a tese dos cristãos anónimos de Karl Rahner - o melhor teólogo católico do século XX. Li Hans Kung - outro grande teólogo católico do século XX e dos poucos ainda vivos - e o seu trabalho sobre as grandes religiões. Começo a ver alguma luz ao fundo do túnel, no sentido de encontrar uma justificação para aquilo em que acredito.

Como já aqui escrevi, gosto de ler autores não cristãos. Por exemplo, Ken Wilber (o meu preferido), Deepak Chopra, Thich Nhat Hanh, Dalai Lama, Eckhart Tolle, Don Miguel Ruiz, Jack Kornfield, Jon Kabat-Zinn, entre muitos outros. Curioso que já tenha lido mais livros do Dalai Lama do que dos vários Papas da Igreja. Acho que esta diversidade tem contribuído significativamente para o meu crescimento espiritual. Dos autores cristãos, gostei muito de ler Anthony de Mello, embora os seus livros se encontrem em fim de edição, não reeditáveis, após a notificação do Vaticano. Gostei também muito de ler Thomas Keating sobre Centering Prayer, tal como estou a gostar de ler "A Nuvem do Não-Saber", "Relatos de um Peregrino Russo" e Laurence Freeman.

De Ken Wilber aprendi (e ainda aprendo) imenso com a sua Teoria Integral. Ainda me lembro do momento em que ouvi a a quinta sessão da Breve História de Tudo, sobre o "Awakening to the non-dual" ("O Fulcro 9: O Causal", pág 198-203, Uma Breve História de Tudo, Ken Wilber, Via Óptima), e o que senti como se tivesse descoberto algo verdadeiramente novo naquele preciso momento. Se ao longo da história houve diversos filósofos e pensadores chave (Aristóteles, Descartes, Kant, etc.) que influenciaram a forma como pensamos e vimos o mundo, acredito que Ken Wilber será um deles. Por isso, acredito também que faz sentido um Cristianismo Integral (ver aqui e aqui).


Comecei esta minha longa mensagem por dizer que, durante mais de um ano, reparei neste tópico e tive vontade de participar. Esta semana, aproveitando os feriados e mais algum tempo livre do que é habitual, consegui pôr por escrito aquilo que fui pensando e meditando ao longo de todo este tempo. Talvez tenham ficado por dizer algumas coisas (maior detalhe e algumas explicações), mas o essencial está aqui. Faço-o numa perspectiva construtiva. Numa perspectiva de questionar e de continuar a caminhar. De alguém que não compreende e se interroga, porque acho que a fé é feita de mais interrogações do que certezas.

Resta-me agradecer o tempo que levaram a ler esta minha mensagem, a oportunidade que me deram de crescer convosco, e de juntos continuarmos a caminhar. Gostaria de terminar, com uma citação de um teólogo que atrás referi:

"The Christian of the future will be a mystic or he will not exist at all.", Karl Rahner


Muito obrigado,
Luís Gonzaga

Re: Uma pertença sofrida: católico, cristão, "apesar de"...
Escrito por: sementesdetrigo (IP registado)
Data: 30 de December de 2009 21:47

Tenho vindo aqui ler-vos no silêncio, guardando as vossas partilhas no meu coração e orando por elas… existe, claro, mais vida para além de meras palavras… mas sinto que falta ainda algo aqui …(perdoem-me a ousadia) … …! Deixo apenas uma pequena abordagem que escrevi há tempos num espaço-blog que tenho e onde escrevo e vou partilhando algo sobre caminhos da espiritualidade que trilho como cristão católico… (acrescenteia qui algumas palavras para situar-me apenas)... espero ser mais ajuda que peso ao caminho da partilha aqui proposta… se não for, nada melhor do que me darem um bom pontapé e “ála” a apanhar ar dos campos que faz muito bem à presunção….risos… bom, aqui vai a partilha, perdoem o volume, mas não consegui reduzir:
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Pertença ou possuidor e consumidor...!

Hoje, cada vez mais se vive a espiritualidade como se fosse uma face dupla da existência da vida! Existem determinadas horas e espaços concretos onde se cria como que um isolamento da própria existência humana e da vida..!

É aí que surge, gerados pela mente e pelo movimento gestual e vocal, animados e criados por rituais e fórmulas às vezes tão diluídas no campo do extraordinário, como se tudo se transformasse nesses momentos, em existências e caminhos mais para além do concreto e do palpável, o tal inalcançável ao olhar meramente humano…!

É estranho, mas a realidade é que anda muita gente a tentar descobrir a vontade de Deus fora de si mesmos…! O acto da existência para muitos cristãos tornou-se um acto isolado… Mais estranho ainda, é que os únicos caminhos que trilhamos para nos aproximarmos de Deus são exactamente aqueles que nos impedem de O tocar, sentir…!

Depois, outro absurdo é existir tanto desejo de fazer e viver a vontade de Deus, e viver-se precisamente fora do único caminho que nos poderia abrir caminhos para Ele, que é o Evangelho, sem tentar perceber afinal que esse caminho é precisamente o caminho que o próprio Jesus viveu, não é por acaso que toda a narrativa dos Evangelhos fala e descreve o viver de Jesus e dos que andaram com Ele.

Jesus aponta como único ponto de referência para a vida a própria vida! É nesse existir e no andar nesse caminho da vida que encontraremos a vontade de Deus…! Se consigo ler os Evangelhos com esse novo olhar, percebo que o acontecimento não precisa de ser explicado, mas vivido, e ao ler dessa forma os Evangelhos, nasce um novo olhar e uma nova compreensão, sem cair novamente nos desejos de apenas perceber sem ter experimentado…

Se eu conseguir a partir dessa nova forma de estar e olhar do Evangelho experimentar a mesma forma como Jesus olhou e viveu a vida real e concreta como homem, certamente vou continuar a ter ainda muitas dificuldades no existir, mas descubro que afinal o Evangelho é algo simples e concreto, acessível a todos, possível de viver e experimentar porque ele é vida concreta da existência humana…!

Quando olho um Paulo ou Pedro, com todas aquelas experiências humanas, cada vez mais vou percebendo que a mim também me é possível viver da mesma forma… As experiências pessoais que viveram apontavam a fonte que era Jesus, e é isso que me importa nas suas narrativas que não preciso de copiar mas sim viver na minha existência concreta de vida, da maneira e da forma que sou, hoje, buscando o conhecimento e a experiência concreta sem medos da existência…!

Finalizando, o que cada vez mais se precisa hoje é viver sem tentar copiar… viver genuinamente… e isso só acontece dentro de um coração que não foge à existência concreta da vida e acolhe a realidade das coisas com paz, mesmo aquelas mais obscuras dentro de nós… essa paz que alguém encontrou quando compreende que Jesus chama a todos, não para ensinar ou dirigir os outros, mas apenas para fazerem a caminhada lado a lado aprendendo a viver juntos na comunhão que dá espaço ao genuíno… à diferença…

Essa é a Igreja que sonho… que vivo, por isso, ser cristão-católico ou não católico não é nada difícil, o difícil é ser genuíno…! Ser fiel ao Evangelho… e ele, o Evangelho que é o chão verdadeiro da vida cristã, pode-se viver e experimentar, basta querer viver nele e por ele… não consigo perceber cristãos tristes se a Boa Nova é o que ela significa.. Boa Nova.. essa é a razão de ser Igreja... de estar nela e por ela em todos... com Cristo...

Se sou apenas um consumidor de rituais ou possuidor... não pertenço.. se não pertenço.. sou apenas um estranho.. um solitário dos caminhos cristãos.. um eterno insatisfeito e cheio de um Nada…...

Re: Uma pertença sofrida: católico, cristão, "apesar de"...
Escrito por: p_veiga (IP registado)
Data: 24 de March de 2010 22:58

A propósito da leitura de uma mensagem
Escrito por: Filos (IP registado)
Data: 04 de Março de 2009 07:39

Também eu sou católico, apenas baptizado… Nasci num tempo em que ser filho de pais separados era como ser filho do diabo, e por isso não segui os restantes passos que um jovem teria feito na sua aprendizagem do catecismo da época, no entanto ia regularmente à “missa” mas nunca aceitei bem os dogmas, nem as verdades teológicas da fé em oposição dos conhecimentos pela experiência científica. Para mim a teologia foi o verdadeiro problema, sublinhando sempre a omnipotência e o temor a Deus em vez de sublinhar a caridade e o amor.
Talvez tenha sido do meu tempo, em que o demónio esta na caixa das bolachas, na bola, no pião no berlinde, etc.
Mas tive sempre dificuldade de lidar com verdades dogmáticas prefiro sempre o conhecimento demonstrável. É a minha opinião, ser necessário criar um novo grupo de católicos englobando assim outros que apenas anseiam pela moral, e o espírito de solidariedade e de amor ao próximo, incluído dessa forma as pessoas que não aceitam bem o dogmatismo e algumas regras, mas que dão bons exemplos de moral.

Assim como o membro Filos, e eu próprio, há muitos mais, eu converso com vários, nenhum deles quer ser diferente, ou estar fora da igreja católica, aparecendo muitas vezes ou unicamente em certos rituais como o matrimónio, o baptismo e funerais, levando-os a afirmar serem católicos não praticantes…

No entanto o culto mariano, não me afecta pela negativa, bem como os corredores de caixas de esmolas, prefiro o santuário de Fátima a mais um estádio de futebol. Não há igreja grande ou pequena, catedral ou capela que eu visite que não deixe a minha contribuição monetária de boa vontade, e não espero que seja apenas para alimentar os pobres, para isso há o Rendimento Mínimo Social, mas que sirva também para a manutenção desses monumentos para que gerações futuras os possam admirar.

Paulo Veiga

Re: Uma pertença sofrida: católico, cristão, "apesar de"...
Escrito por: irmãoluis (IP registado)
Data: 23 de June de 2010 01:11

tenho orgulho em ser católico .. tenho orgulho em querer ser cristão ...
porque? simplesmente porque a minha vida não faz sentido sem Deus.. porque a minha história não teria rumo sem Cristo... o que fazem os outros não me importa.. também eu sou pecador, também eu sinto a grande vontade de se perdoado... desde que encontrei um caminho dentro da igreja que tento redescobrir a minha verdadeira fé e a minha verdadeira vocação. mas de uma coisa estou certo, Deus ama-me e chama-me a evangelizar todas as ovelhas perdidas.
ao longo da minha curta vida (22 anos) tenho sido discriminado insultado e muitas vezes ridicularizado por me manter firme no amor a Cristo e a Deus. Por isso mesmo sai de um trabalho que era a minha segurança por não ser compreendida a importância que tinham para mim dias como o domingo a pascoa e o natal..
apesar disso sei que Deus providenciará. e que em tudo Ele seja louvado.
porque tenho a certeza de que ele não me deixará só...
a Paz de Cristo esteja sempre convosco.
irmão Luís

Re: Uma pertença sofrida: católico, cristão, "apesar de"...
Escrito por: João Oliveira (IP registado)
Data: 24 de June de 2010 10:10

Estou de momento a agradecer a Deus por me ter conduzido a esta parte específica do fórum e fico a pensar no tipo de partilha a fazer, não só por mim mas sobretudo em relação aos problemas levantados pelo Filos e pelo Luís Gonzaga em detalhe.

Vou pensar e rezar nas respostas a questões - que são realmente comuns - muito pessoais.

Se quiserem/puderem actualizar alguma coisa, visto que já mais de um ano passou, façam-no por favor! :)

João Almeida Oliveira

...«Se permanecerdes fiéis à minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres.» ~ Jo 8,31-32

Re: Uma pertença sofrida: católico, cristão, "apesar de"...
Escrito por: João Oliveira (IP registado)
Data: 24 de June de 2010 10:57

Acabo de reparar que o irmaoluis colocou este único post no fórum, na véspera de hoje. Desse modo, trouxe o tópico aos meus olhos, a toda esta autenticidade testemunhada. Estar na presença da honestidade é estar na presença da verdade, e nela sempre haverá presença do próprio Senhor.

Gostava de te agradecer e encorajar, irmaoluis - bem reparei que antes de ti a maioria dos "apesar de" aqui apresentados falavam mais dos outros do que de si mesmos.

Foi esse o meu primeiro impulso: ouçam lá, todos nós somos católicos, somos de Deus, apesar de... nós mesmos. Estou em casa não por me consolar apesar dela mesma como alguns disseram - vejo nisso um aproveitamento de certo modo estéril e "esquizofrénico" como dizia o Alef há uns anos - mas sim, é o meu lar. Desculpem-me atrapalhar algumas das coisas que li aqui, mas em matéria de religião há de facto a possibilidade e a obrigação de mudar de casa em favor da verdade. Apresentam razões culturais e sociais para falar do Eterno? Apenas emocional, de facto. Mas a verdade não voa só com uma asa.

Uma poesia com fundo de verdade mais dilatado diria, antes, que nesta habitação de Deus feita de pedras vivas, moramos também dentro de nós em diversos andares, todos plenamente atingidos pela luz de Deus, mas alguns abrem mais janelas e sobem mais escadas que outros - a grande custo pessoal. O esforço é uma realidade bastante nobre, tal como a dor, sofrida como no título deste tópico, mas não uma vitimização; não à custa dos outros, mas necessariamente à custa de mim mesmo. Talvez não me faça entender, mas avancemos...

Quando descobrimos que todos os momentos não são suficientes para começar sempre de novo o seguimento de Cristo, descobrimos tudo o que a Igreja é e me oferece, toda a graça que Deus esbanja em mim, única fonte de salvação, e todas as formas que o Senhor do universo encontra para continuamente me surpreender, desafiando novas formas de entrega pessoa (isso é que crescimento espiritual). Essa Igreja una, santa, católica e apostólica que me ensina a abertura ao infinito e esclarece sobre os píncaros de amor que melhor me introduzem na pura comunhão com Deus, se for essa a Sua vontade.

Precisamente devido a esses mares de amor pouco navegados de que ela é fiel mestra, devemos nós vibrar de felicidade ao nos darmos conta da visão com que o próprio Deus nos moldou: a própria imagem e semelhança em que Ele existe enquanto amor trinitário. Nela aprendemos como os corpos e a união sexual têm um propósito determinado, o da renovação da aliança matrimonial. Fala-se sempre de amor: um casamento encontra a sua razão de ser na entrega sem reservas do casal... por isso é que a contracepção contradiz a própria essência do casamento, em termos muito concretos e directos, consequentes (seja pela ausência de filhos, seja pela sua felicidade diminuída - influenciando a frequência do divórcio formalizado -, ou seja pelos traumas de desamor que provoca) até na separação que se sente face à comunidade ou ao ensino autorizado. Isto é que é ter uma visão autenticamente carnal bem como espiritual do sexo, mas em vez dessas duas, melhor seria usar a palavra "católica", que diz mais; diz tudo o que há de essenciamente bom, que todo o ser humano anseia.

Em relação a todas as outras questões, bastaria começar por usar ou aprofundar esta mesma realidade. O significado esponsal dos corpos e a maturidade necessária para o alcançar, seja sexual ou espiritualmente (mesmo no que diz respeito à amizade e direcção espiritual), procede daí. Não temos outra medida senão a de Deus. E apesar disso, somos assim, e devemos ser, tão pobres de espírito.

Um grande abraço, MEU irmão Luís. E ânimo e até breve, a todos, voltarei daqui a uns dias se Deus quiser.

João Almeida Oliveira

...«Se permanecerdes fiéis à minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres.» ~ Jo 8,31-32



Editado 3 vezes. Última edição em 26/06/2010 00:01 por Luis Gonzaga.

Re: Uma pertença sofrida: católico, cristão, "apesar de"...
Escrito por: irmãoluis (IP registado)
Data: 24 de June de 2010 21:05

caro irmão joão.
se não falar de mim de quem falarei?
Cristo mostra-me que para ser cristão tenho que responder pelos meus actos...
é muito fácil falar da vida e dos problemas de outros...
mas os meus são sempre postos de lado para que ninguém veja que eu também sou humano ...
tal como já disse anteriormente sou tão pecador como os que o são ..
mas uma pessoa que não cometa erros nunca chegará á santidade.
Quando encontrei este fórum estava a procura do que diziam na net sobre o caminho neocatecumenal, e fiquei chocado com a incompreensão de alguns testemunhos...
eu iniciei o caminho há algum tempo.. e isso tem-me ensinado a falar de mim e a tornar-me verdadeiramente um cristão ...
lembrar-me ei de ti irmão joão nas minhas orações...
a paz contigo ...
que em tudo Deus seja louvado .
irmão Luís

Re: Uma pertença sofrida: católico, cristão, "apesar de"...
Escrito por: firefox (IP registado)
Data: 18 de July de 2010 01:11

Parece-me que o artigo abaixo tem muito a ver com o tema do tópico:

[dn.sapo.pt]

Triste (e desnecessária) realidade.

Re: Uma pertença sofrida: católico, cristão, "apesar de"...
Escrito por: Ovelha Tresmalhada (IP registado)
Data: 22 de July de 2010 12:26

Quero felicitar o Luís Gonzaga pelo seu magnífico texto de 15.06.2010.
Com poucas mensagens de todo o fórum me identifico tanto como com esta.
Obrigado, Luís, pelo teu testemunho!

Re: Uma pertença sofrida: católico, cristão, "apesar de"...
Escrito por: camilo (IP registado)
Data: 26 de July de 2010 16:48

Eu lido bem com o que me parecem ser as imperfeições da doutrina e da prática da Igreja, pela simples razão de que sinto que tenho imperfeições bem piores.

Quando me incentivaram a fazer alguma atividade na Igreja, alguma ação pastoral hesitei por causa disso mesmo. Tendo eu tantos defeitos, alguns bem notórios e de importância, será que o meu empenho não servia mais para afastar que para aproximar da mensagem de Cristo. Os meus defeitos não iriam envergonhar publicamente Jesus Cristo e a Igreja? Não iriam servir para serem apontados publicamente como justificação para um afastamento da Igreja e da mensagem cristã?
Talvez fosse melhor eu permanecer um cristão semi-oculto, na sombra?
Apesar da minha hesitação comecei a participar nas atividades da Igreja, preferindo as que me permitem ficar mais na sombra.
Não digo isto por humildade, uma das criticas que me fazem é que sou orgulhoso, e sou obrigado a concordar que tenho essa infeliz tendencia de forma bastante vincada.
Simplesmente é assim que sinto e penso.

A igreja tem defeitos? Claro que tem, a Igreja é obra divina e humana, e tudo o que é obra humana tem defeitos. A Igreja caminha, aperfeiçoa-se, aperfeiçoa-se porque não é perfeita, como não são perfeitos os cristãos.

Analisando agora algumas das criticas que aqui são colocadas, começando pelas do Luis Gonzaga.

O marianismo... não me parece que seja mau amar Maria, nem que se ame excessivamente, quem ama verdadeiramente a Deus ama as suas obras e nessas obras Maria tem um lugar destacado.
Além disso há que considerar, mais uma vez, os aspectos psicologicos da pastoral. Vejo muitas propostas pastorais, mas as pessoas aderem mais às propostas "marianistas", haverá nisto muito complexo de Édipo, muitos reflexos de uma vivencia pessoal com um amor materno de melhor qualidade que um amor paterno. Não é Maria que tem um lugar excessivamente destacado na pastoral, na devoção e no amor dos católicos, não se deve "diminuir" Maria, antes aumentar o lugar do Espirito Santo. Pastoralmente parece-me um erro crasso, uma deficiente compreensão da psicologia e das motivações das pessoas procurar "diminuir" Maria julgando que daí advem um aumento do amor por Deus e em particular uma maior relevancia ao Espirito Santo. Não, vamos a Deus atraves uns dos outros, é atraves do proximo, de outros seres humanos que chegamos a Deus. Deus está em cada um de nós, é através do próximo, também através de Maria que vamos subindo no caminho da fé. Bem, podem existir exageros, mas nada de relevante.

2) O papel da mulher na Igreja e 5) Igreja Católica Romana por vezes pouco católica (universal) e muito romana.
E porque junto estes dois pontos? Porque se acham a igreja catolica conservadora ortodoxa é-o muito mais. A grande esperança do dialogo ecuménico é com a apostolica igreja ortodoxa, não com o protestantismo (que aliás por baixo de uma aparencia vicosa está muito estiolado). E aqui mudar radicalmente o papel da mulher na Igreja é correr o risco de matar o dialogo ecumenico durante decadas. Depois as sensibilidades em relação à ordenação de mulheres variam muito, e criticar a Igreja Católica por não permitir a ordenação de mulheres que seria aceite sem muitas dificuldades em ambientes cosmopolitas europeus, mas não noutras culturas é precisamente correr o risco de cometer o erro que se critica no ponto 5, e não pensar que tudo o que se aprova na Igreja não é relevante apenas para a europa, mas também para todo o mundo.
Algumas notas ainda sobre este ponto.
Maria silenciosa? Só na aparência. A Maria depois de educar Jesus Cristo, foi-lhe confiado o Apostolo João. O cristianismo dificilmente atingiria a dimensão espiritual que atinge sem os extraordinarios escritos de São João. É também notória a influencia direta de Maria no evangelho de São Lucas, Lucas que foi por sua vez discipulo de São Paulo. Não há indicações explicitas nos evangelhos da influencia de Maria na Igreja primitiva, mas nas entrelinhas conseguem-se intuir indicios de que Maria teve uma influência primordial no desenvolvimento do pensamento teologico da Igreja.
Ainda sobre o papel da mulher na Igreja. Ao contrário do que o Luis Gonzaga afirmou João Paulo II não fez nenhuma proclamação dogmatica sobre o papel da mulher na Igreja, a formula usada foi dúbia, mas ninguém considerou aquela declaração uma proclamação dogmática.
Na antiguidade a Igreja destinou um papel para as mulheres que representava um progresso em relação ao que lhe era dado no mundo civil. Que deveria fazer a Igreja hoje? Se existirem duvidas doutrinais não deve fazer nada. Na minha opinião as razões doutrinais para impedir o acesso das mulheres ao sacerdócio são irrelevantes. Existem razões pastorais e terão sido essas que terão levado Jesus Cristo a não escolher nenhuma mulher para o grupo dos apostolos. Será que essas razões pastorais são ainda hoje importantes? Duvido, mas mesmo assim parece-me prudente antes de ordenar mulheres confiar-lhe cargos relevantes dentro da Igreja, não faltam na Igreja cargos de crucial importancia que podem ser desempenhados por mulheres (e por leigos). O resto poderia ser feito com prudencia e sem que isso levantasse problemas. Acho até que é urgente fazê-lo. O dialogo ecuménico deve ser baseado em bons motivos e o costume não é um motivo razoavel. Não deve esta mudança ser fundamentada principalmente em sondagens, mas sim em principios morais inerentes à propria mensagem cristã.

3) A Humanae Vitae, a contracepção e atitude da Igreja perante a sexualidade
A atitude da igreja foi e ainda é muitas vezes realmente erradamente negativa em relação ao sexo (já a sexualidade é tão intrinseca à natureza humana que é dificil ser-se-lhe opor-se - isto é uma subtileza que pode não estar compreensivel à leitura). Mas as razões estatisticas apresentadas pelo Luis Gonzaga para repudiar essa doutrina são completamente irrelevantes. Haverá ainda menos pessoas capazes de seguir plenamente o mandamento do perdão, em tempos mais ou menos distantes quase todos concordavam com a escravatura, etc. A Igreja deve ser fermento que mude a massa, ser for apenas mais massa apenas serve para deitar fora.
Mas ao contrário da quase totalidade das pessoas ao analisar, no mundo ideal, a lógica inerente à Humanae Vitae apresenta-se-me inexpugnavel. Compreendo que à quase totalidade das pessoas ela se apresente absurda, o desejo é como um nevoeiro que cega. Mas a minha adesão lógica, racionalista a essa doutrina, dá-se no campo da lógica fria, matemática, desencarnada. Nesse campo a doutrina inerente à humanae Vitae parece-me a ideal. Eu não gosto que assim seja, mas se me desapegar do desejo sexual, se analisar isto com a frieza de uma equação matemática não posso discordar da doutrina da Humanae Vitae. No campo das ideias puras tudo encaixa na perfeição.
Mas o mundo ideal, perfeito não existe e realmente parece-me que há um exagero na forma como a proposta de planeamento familiar é apresentada pela Igreja, um idealismo utopico que na grande maioria dos casos é impraticavel porque entra em conflito com outros valores importantes e a importancia dada ao repudio da contracepção parece-me exagerada, ainda por cima mal comunicada, dando origem a que visão da igreja sobre toda a sexualidade seja menosprezada, incluindo noutros campos aonde a mensagem seria melhor acolhida se a doutrina sobre a contracepção/planeamento familiar não fosse anunciada com uma rigidez que será propria de um mundo ideal, de quem procura a perfeição evangelica mas que raremente ocorre na realidade e que conflitua muito frequentemente com outros valores importantes.

4) A pastoral do medo e regra do "Não".
Isto realmente existiu e ainda existem raros resquicios disto nalguns lados. Só muito tardiamente tomei conhecimento desta pastoral do medo (e com alguma surpresa). Agora o erro maior parece-me precisamente o oposto. Deve ser a regra do pendulo, passamos de um extremo ao outro. Da pastoral do medo à pastoral da irresponsabilidade, da salvação geral sem esforço. Embora me pareça que o maior problema seja mesmo a falta de relevancia de alguma da pastoral. O que nos conduz ao ponto 6)

6) A insuficiente formação e espiritualidade de alguns sacerdotes.
É muito pior a dos leigos em geral. E o pior é que a enorme maioria dos leigos para além de não terem formação não a querem ter. E quando a têm, muitas vezes de forma autodidacta é, na maior parte, dos casos fraca, destruturada.
Com aliás é fraca a minha opinião dos autores que conheço e foram citados pelo Luis Gonzaga. Por exemplo o Anthony de Mello quando o li, tinha eu 20 anos, a ideia que fiquei foi a de ensinar um relativismo religioso que resultava de uma má compreensão do chamamente universal de todos à salvação e de ensinar também uma forma sofisticada de egoismo. Admirei-me na altura com a complacencia que tinham com tal autor. Já o Chopra parece-me apenas um vigarista bem falante.
Se pessoas de outras religiões terão a vida eterna? Claro que sim, mas não se pode usar isto como "sou catolico, mas" porque isto nos dias de hoje faz parte da doutrina da igreja.
Se há bons autores não cristãos? Claro que há, um dos meus favoritos é Tagore.


As "criticas" do Zé. Tive um longo, mas bastante incompleto debate com ele sobre a homossexualidade e a perspectiva cristã da homossexualidade. Tendo a igreja uma perspectiva tão negativa da homossexualidade é compreensivel o desgaste dele em relação à igreja. Mesmo que a Igreja não considere o homossexual um pecador, apenas pela sua natureza, considera a prática homossexual um pecado e a maior parte dos cristão (e em particular a maior parte do clero) vê esse pecado carregado em tons muito negros. Tanto que se torna dificil fazer aceitar a distinção entre pecado e pecador. Torna-se dificil dizer que os homossexuais devem ser respeitados quando se carrega em tons tão negros a prática homossexual.
Esta é apenas uma faceta de uma realidade que particularmente me desgosta entre os cristãos. Na teoria ensina-se que é necessário perdoar e respeitar quem peca. Na prática é raro os cristãos perdoarem, mesmo as pequenas ofensas.
Uma das razões, que não cheguei a avançar nos meus debates com o Zé, para uma visão tão negativa da homossexualidade na Igreja, é que o ambiente homossexual foi durante muitos anos, e pelos dados estatisticos que vi ainda é, dominado por não homossexuais. Foi dominado por bissexuais e por "predadores", pessoas que gostam de praticas sexuais bizarras, que procuram a pratica homossexual não tanto por uma questão de tendencia homossexual, mas porque entraram numa voragem de variação da pratica sexual que os leva, entre outras fantasias, à pratica homossexual. (esta é uma afirmação que pode ser polémica, mas vi dados estatisticos que indicam isto mesmo).
Que fazer? Na lógica da sexualidade cristã a prática do sexo homossexual não faz sentido, não pode ser considerado aceitável. O homossexual deve ser convidado à abstinencia, embora a abstinencia possa ser dificil, pesada para alguns (embora eu ache que o hábito é uma segunda natureza e a mim não me custe particularmente, se a minha esposa morrer ou tiver algum problema eu não procurarei ter algum tipo de sexo - o que aliás já aconteceu durante uns largos meses devido a uma doença dela). Esta dificuldade torna-se ainda mais pesada quando vivemos num ambiente paganizado e muito erotizado.
A comunidade cristã deve ser ensinada a respeitar os homossexuais, não se devem de forma alguma acicatar ódios contra eles, nem se deve menorizar os homossexuais, a homossexualidade não deve ser demonizada, mesmo a prática homossexual não pode ser toda encarada da mesma forma, há que distinguir entre quem entra nessa prática devido a tendencias profundas e quem as faz devido a uma espiral de voragem de diversificação de praticas sexuais.
Mas não se pode ceder há tentação de ocultar a exigencia da mensagem cristã, há sempre que manter a mensagem clara, na perspectiva cristã a sexualidade tens fins que, na sua plenitude, não se compatibilizam com a prática da homossexualidade. O ideal cristão para, um homossexual, passa pela abstinencia (embora não necessariamente pela solidão).



Editado 1 vezes. Última edição em 26/07/2010 16:59 por camilo.

Re: Uma pertença sofrida: católico, cristão, "apesar de"...
Escrito por: João Oliveira (IP registado)
Data: 02 de August de 2010 03:44

Gostava de agradecer ao camilo a sua partilha equilibrada quanto a alguns dos pontos abordados pelo Luís Gonzaga. É de respeitar que esse equilíbrio tem que ver precisamente com o vértice da verdade que encontra em Cristo e que lhe permite fazer da expressão clara e sem ambiguidades uma obra de caridade e, implicitamente, um apelo a que se fique com o melhor.

Encorajou-me a desenvolver o que posso também dizer sobre aqueles pontos de vista que, se bem que foram finalmente expressados, mais fortemente provocam nos outros que venham em seu auxílio.

Certamente que existem mais ovelhas tresmalhadas que não o diriam com tantas e tão abertas palavras, mas como são essas que ao ver o testemunho de outros se sentem identificadas com a sua vida mais fora do redil do que dentro, é necessário ainda mais chamá-las para que não se confundam em caminhos alheios à plenitude que só Cristo possibilita.

Parece desconhecer-se que existe uma profundidade a explorar, que o mundo precisa da vida que Deus nos deu, que não é para ser desperdiçada. Que a nossa oração e o que damos faz uma diferença vital. Que amar a Deus não é algo de superficial, mas que nos pode transfigurar totalmente se nos entregarmos desse modo. Que não existimos no mundo para ir com a corrente, muito pelo contrário... Temos um carisma e dons particulares, os quais a bondade de Deus resgatou à nossa frágil natureza e são esses que temos a felicidade de poder aproveitar. Sim, Deus quer o sentido das nossas vidas identificado com a própria história da Igreja, a história do seu povo, que fundamentalmente vive em aliança com o seu Criador, Redentor e Santificador.

Apesar de não compreender exactamente como não encontram nisto algumas pessoas segurança espiritual suficiente, escudando-se com questões do mais disperso teor ideológico e político para criticar a comunidade que pelos vistos nunca se determinaram a escolher. Sim, porque quem é capaz de uma escolha faz uma opção afirmativa e outra negativa; não as confunde por mais sofrida que tenha vindo a ser, pois a escolha define a pertença mesmo que as circunstâncias não tornem essa escolha constantemente satisfatória.

João Almeida Oliveira

...«Se permanecerdes fiéis à minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres.» ~ Jo 8,31-32

Re: Uma pertença sofrida: católico, cristão, "apesar de"...
Escrito por: Ovelha Tresmalhada (IP registado)
Data: 02 de August de 2010 22:47

Citação:
João Oliveira
Encorajou-me a desenvolver o que posso também dizer sobre aqueles pontos de vista que, se bem que foram finalmente expressados, mais fortemente provocam nos outros que venham em seu auxílio.

Não compreendi bem o alcance da segunda parte da afirmação. Todos os pontos de vista, sejam eles quais forem e tenham o sentido que tiverem, são sempre susceptíveis de suscitar reacções de concordância ou de discordância, total ou parcial. Não é o facto de as reflexões que o Luís Gonzaga entendeu partilhar neste fórum terem o sentido que têm que torna mais prováveis as reacções de aplauso. Se elas fossem de sinal contrário, creio que a probabilidade de provocar comentários concordantes e "de auxílio" seria rigorosamente a mesma.

Citação:
João Oliveira
Certamente que existem mais ovelhas tresmalhadas que não o diriam com tantas e tão abertas palavras, mas como são essas que ao ver o testemunho de outros se sentem identificadas com a sua vida mais fora do redil do que dentro, é necessário ainda mais chamá-las para que não se confundam em caminhos alheios à plenitude que só Cristo possibilita.

Aqui ainda fiquei mais confuso! É que, sendo eu, neste fórum, a única e genuína Ovelha Tresmalhada, quero garantir que, ao felicitar o Luís Gonzaga pelo testemunho que é o seu post, não deixei de me continuar a sentir totalmente dentro do redil que é a nossa querida Igreja Católica, à qual pertenço desde que me conheço e fora da qual me sentiria pior do que um peixe arrancado ao oceano.

Quis felicitar o Luís não tanto porque veio de encontro às minhas próprias reflexões sobre algumas das questões que formulou (e isso não quer dizer que concorde totalmente com ele em tudo quanto afirmou) mas sim porque, apesar, precisamente, das reservas, perplexidades e inquietações que sintetizou em 7 pontos, se continua a afirmar, sem reservas, como cristão e como católico, reconhecendo na Igreja a sua própria Casa. Tantos e tantos há para quem essas questões são incontornáveis pedra de tropeço, levando uns ao abandono puro e simples da Igreja, e impedindo outros de nela entrar!

Ver nas palavras do Luís uma espécie de moção subserviva contra a Igreja Católica, capaz de fazer vacilar e confundir as almas mais titubeantes e arrastá-las para fora do redil, engrossando a legião dos tresmalhados, seria um absurdo em que nenhum dos foristas, certamente, incorrerá.

A reflexão aberta, sadia, humilde e vigilante sobre a sintonia entre os verdadeiros fundamentos da Fé cristã e a praxis da Igreja não deve assustar ninguém. Pior do que as ovelhas alegadamente tresmalhadas são as ovelhas incautas, acríticas, submissamente diluídas na massa informe dos que se limitam à obediência cega.

A história da Igreja já nos deu, infelizmente, demasiados exemplos de tantas ovelhas que, sem nunca pular a cerca do redil e sem nunca ousar discutir os ditames de quem se arrogava infalível guardião da mais pura ortodoxia doutrinária, foram capazes de aplaudir os actos mais bárbaros, hediondos e anti-cristãos, julgando, por trágica ironia - como, aliás, previu Cristo - que, assim, davam glória a Deus...

Como muito bem diz o João Oliveira - e aí faço minhas as suas palavras -, "...quem é capaz de uma escolha faz uma opção afirmativa e outra negativa; não as confunde por mais sofrida que tenha vindo a ser, pois a escolha define a pertença mesmo que as circunstâncias não tornem essa escolha constantemente satisfatória."



Editado 1 vezes. Última edição em 02/08/2010 22:50 por Ovelha Tresmalhada.

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