| 3, 1-24. Transgressão e sanção. Para interpretar religiosamente as penas e os sofrimentos da vida humana, atribuindo-as a um acto da criação de Deus, o narrador não os podia fazer depender directamente de Deus, porque isso seria atribuir a Deus a origem do mal físico. Por meio da linguagem simbólica e mítica, diz que foram criados por Deus, sim, mas em forma de punição de uma transgressão cometida pelos humanos que estavam a ser criados. Assim, esta explicação religiosa e popular desculpa, na medida do possível, os humanos criados e o Deus criador: dizendo que os humanos transgrediam para alcançar o necessário conhecimento, desculpava-os de leviana imoralidade em tal acto (o "conhecimento" era indispensável para que o homem e a mulher se tornassem humanos completos); dizendo que Deus teve de voltar a intervir para corrigir a transgressão humana (tornando humanos os que se tinham tornado "como deuses"), desresponsabilizava-se Deus de ser causa das penas humanas. Esta explicação não é fatalista ou trágica mas positiva: leva o leitor a aceitar serena e realisticamente as realidades da vida. |
| 1. A serpente. Instintivamente, as pessoas sentem horror perante este réptil e, se puderem, esmagam-lhe a cabeça (v.15). O autor deste texto tomou-a como motivo fabuloso, com ambiguidade procurada, para explicar as coisas boas e más da existência humana. Este animal manhoso, que fala, desencadeia a evolução da criação dos humanos: convencendo os humanos a transgredir, contribui para a aquisição do conhecimento e da civilização, mas também das penas e da morte humanas. A serpente é mais um artifício literário que o narrador usa, ao serviço da sua teologia narrativa: ver tudo em Deus e Deus em tudo, como origem de tudo. Isto exprime uma atitude contemplativa face à vida humana (Sb 2,24; Jo 8,44; Ap 12,9; 20,2). |